Patricia Lages Análise: Homossexualismo ou homossexualidade e por quê?

Análise: Homossexualismo ou homossexualidade e por quê?

O termo homossexualismo foi banido da Língua Portuguesa pela ideia de que o sufixo “ismo” indica doença, mas há fundamento?

O grande problema é tentar controlar o que falamos

O grande problema é tentar controlar o que falamos

Gerd Altmann/Pixabay

Em outubro de 2020, publiquei um artigo nesta mesma coluna intitulado “Controlar a fala para controlar o pensamento”. Nele, citei o livro “1984”, de George Orwell, que fala sobre um controle estatal que inclui a criação de um novo idioma, a Novilíngua ou Novafala, com o objetivo de manipular o pensamento dos cidadãos e torná-los mais fáceis de serem subjugados.

Na ocasião, comentei que ler essa obra nos dias de hoje dá a impressão de estarmos diante do jornal de amanhã devido à tamanha similaridade com o que está acontecendo atualmente. Qualquer pessoa que tentar dialogar com algum patrulheiro da fala – sim, tentar, pois nem sempre é possível – invariavelmente será corrigido em algum momento da conversa. Isso porque o número de termos que vêm sendo considerados racistas, machistas, homofóbicos ou, por alguma razão, inadequados, cresce a cada dia.

Para minha surpresa – sim, eu ainda me surpreendo com várias coisas – me deparei com uma matéria de uma revista de moda que afirma categoricamente que devemos abolir termos “LGBTfóbicos, xenófobos, sexistas e racistas”, mencionando um aplicativo que aponta mais de 300 palavras e expressões que não devem ser mais ditas. Agora, imagine-se consultando cada coisa que disser em um app para ter certeza de não estar falando o que não deve...

Mas a questão é: será que as justificativas utilizadas para nos proibir de usar centenas de termos têm fundamento? Começando pela explicação da troca obrigatória de homossexualismo por homossexualidade, preciso dizer que não vejo o menor sentido, pois a alegação é que o sufixo “ismo” tem conotação de doença, distúrbio, anormalidade, enquanto o sufixo “dade” não evocaria esse sentido. Porém, o que dizer de feminismo, socialismo ou até mesmo das palavras automobilismo e ciclismo? Teríamos que mudar seus sufixos também? E quanto à bipolaridade? Não é um distúrbio terminado em “dade”? Que sentido há em trocar um sufixo por outro quando a justificativa não se sustenta?

O objetivo disso tudo não é a tolerância ou o respeito à diversidade, mas sim, controlar o que falamos por meio de uma experiência prática que mostra o quanto nossa sociedade se tornou manipulável. Ninguém raciocina a respeito, mas todos aceitam pelo medo de serem “cancelados”. Enquanto as pessoas se distraem consultando aplicativo que impõe o que não se pode mais falar – crendo que isso fará nossa sociedade mais justa – há quem esteja trabalhando a todo vapor para nos tornar cada vez mais manipuláveis.

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