Sobrecarga da quarentena põe em jogo futuro de mulheres na ciência

De acordo com estudo realizado por grupo de pesquisadoras da Unicamp, quarentena afetou a produtividade de 91% das acadêmicas brasileiras

91% das acadêmicas brasileiras sentiram sua produtividade cair durante a quarentena

91% das acadêmicas brasileiras sentiram sua produtividade cair durante a quarentena

Pexels: Retha Ferguson

No início de março, a notícia de que as cientistas brasileiras Jaqueline Goes de Jesus e Ester Sabino sequenciaram o genoma do novo coronavírus dentro do prazo de 48 horas foi recebida pelos brasileiros com euforia. Não apenas se tratava de um sinal de avanço no enfrentamento da doença, como uma vitória representativa para as mulheres em carreira científica. Cinco meses depois, a sensação deu lugar a mais incertezas estatísticas. É que, durante a pandemia, uma pesquisa revelou que 91% das acadêmicas brasileiras têm sentido um declínio significativo de produtividade, em razão das sobrecargas domésticas decorrentes da quarentena. Entre os homens, o índice é de 74%.

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Embora implicados pelo “novo normal”, os dados preliminares levantados pelo grupo de pesquisadoras que contribuem para o projeto Ciência pelos Olhos Delas, da rede de blogs da UNICAMP, mostram que os efeitos da pandemia podem, de fato, decidir a permanência das mulheres no campo da ciência a longo prazo.

De acordo com a Unesco, a participação das brasileiras na ciência é de 49%. Já nas universidades como um todo, as modalidades de mestrado e doutorado acadêmico somam mais de 175 mil mulheres matriculadas e tituladas, uma diferença de aproximadamente 15% a mais que a presença masculina, de acordo com o CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior).

Juliana Chicon

“Tendo em vista que 91% dessas mulheres estão dizendo que sua produtividade caiu e grande parte da produção científica é feita pelos graduandos e pós graduandos, isso pode sim gerar um grande impacto na produtividade científica como um todo”, é o que explica Marina Barreto Felisbino, doutora da área de Biologia Celular e Estrutural pela UNICAMP. Marina é uma das idealizadoras da pesquisa, que surgiu justamente das conversas com as demais colaboradoras do Ciência pelos Olhos Delas.

“Sempre comentávamos o quanto estava difícil”, conta Marina, que também enfrentava o desafio de cuidar de um bebê de três meses quando a pandemia começou. Embora reforce que as tarefas domésticas são igualmente divididas entre ela e o parceiro, a pesquisadora reconhece que sua realidade faz parte da exceção. No questionário, 44% das mulheres entrevistadas afirmaram não ter rede de apoio.

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Tarefas de cuidado recaem sobre elas


Um dos dados mais reveladores da pesquisa diz respeito aos entrevistados responsáveis pelo cuidado de outros familiares como crianças, idosos ou parentes em grupo de risco. Entre as mulheres que se disseram responsáveis pelo cuidado de terceiros, 94% sentiram sua produtividade afetada. Já entre os homens, o índice caiu para 63%.

“Nos perguntamos como homens e mulheres se sentem diferentemente afetados se ambos têm a responsabilidade de cuidar de alguém”, explica Bruna Bertol, metre em Imunolgoia Básica e Aplicada, doutoranda na USP de Ribeirão Preto e uma das responsáveis pela pesquisa. Segundo ela e Marina, os dados ainda não permitem uma conclusão, mas há uma possibilidade de que, entre os homens que se dizem responsáveis por terceiros, os cuidados estejam sendo transferidos para outras mulheres. “É estranho que os homens que têm filhos, em geral, tenham se sentido menos afetados”, aponta Marina Barreto Felisbino.

No final de julho, uma pesquisa publicada pela revista digital Gênero e Número apontou que 50% das mulheres brasileiras passaram a cuidar de alguém durante a pandemia. Já entre mulheres negras, o número vai para 52% em comparação a 46% das mulheres brancas.

De acordo com as pesquisadoras, 29% das mulheres acadêmicas que sentiram sua produtividade afetada se declararam não-brancas. O número é condizente com a disparidade racial existente na academia. Embora, desde o ano passado, pessoas negras sejam maioria nas universidades públicas, o percentual de mulheres negras (pretas e pardas) docentes em programas de pós graduação é inferior a 3%, de acordo com o Inep.

Desmonte científico e 'fuga de cérebros'


Embora tenham sido potencializados pela pandemia, os desafios enfrentados pelas mulheres em carreira acadêmica no Brasil são anteriores ao coronavírus. “Da minha turma de colegas na graduação que seguiram na academia, acredito que 80% tenha saído do Brasil”, explica Marina Barreto Felisbino, que atualmente é pós doutoranda na Universidade de Denver, no Colorado.  Ela conta que desde 2016, quando terminou o doutorado, não conseguiu financiamento para seus projetos no Brasil. 

“Quem não saiu do país, saiu da academia.”

Marina Barreto Felisbino


Os efeitos da chamada “fuga de cérebros” também se acentuam na pesquisa. Dentre os acadêmicos que estão no Brasil, 84% das mulheres têm medo das consequências de sua queda de produtividade, em comparação a 73% dos homens. Fora do país, o número de mulheres e homens que temem represálias em suas carreiras devido à pandemia cai para 71% e 42%, respectivamente.

“É muito triste porque nossa formação se deu totalmente via verbas públicas”, desabafa Marina. “O Brasil investiu dinheiro para me formar e no momento em que eu poderia retornar esse investimento tive que deixar o país para poder seguir em minha profissão.”

A pesquisadora Bruna Bertol, que acaba de retornar de um doutorado sanduíche na Universidade do Colorado, partilha das mesmas preocupações.

“Quando entrei na faculdade em 2009 e fazia iniciação científica, via a área acadêmica como uma oportunidade. Agora, o cenário é estranho. Pensando em mulheres em situação de vulnerabilidade social, a única opção parece ser deixar a área acadêmica e mudar de profissão”, conclui.

De acordo com as autoras do blog, o questionário segue em aberto para coletar mais informações. 

Juliana Chicon