Elas estão no comando de cervejarias artesanais

Com bebidas surpreendentes, mulheres ganham destaque no mercado de cervejas artesanais. No dia Internacional da cerveja, conheça as histórias de mestres-cervejeiras que arrasam na criação de sabores.

Mulheres que comandam a cervejaria Japas

Mulheres que comandam a cervejaria Japas

Divulgação/ Bruno Fujii

Se, durante muito tempo, beber cerveja foi considerada coisa de homem, imagine fazer cerveja. Pois hoje, no dia internacional da bebida mais consumida no Brasil, vamos trazer as histórias de cervejas e de mestres-cervejeiras que estão levando aos bares e lares muito mais do que lúpulo, água e malte.
Elas levam história, arte, pesquisa e um conhecimento profundo sobre sabores e harmonização. Conversei com as proprietárias de duas cervejarias artesanais que ganharam espaço entre os apreciadores da bebida: a sócia da Cervejaria Dádiva e o time de mulheres da Japas Cervejaria. As cervejas que elas produzem são incríveis. Elevam a experiência de consumo da bebida a outro patamar. Acredite em mim, depois dessa matéria, vá a uma loja de cervejas artesanais (ou peça pelo delivery) e experimente pelo menos um rótulo de cada cervejaria.
Maíra Kimura, Yumi Shimada e Fernanda Ueno são as sócias da Japas. Em entrevista a esta coluna, elas contaram que já se conheciam de festivais e encontros do mercado cervejeiro. Mas em 2014, um post em uma rede social fez com que elas se reunissem para fazer uma cerveja de teste. Foram quarenta litros logo de cara e a ideia foi testar ingredientes japoneses. “Quando a cerveja ficou pronta nos reunimos na casa da Yumi, em São Paulo, para experimentar a cerveja. A versão que mais gostamos era uma american pale ale com adição de Wasabi (wasabi é uma raíz japonesa de gosto único, com uma picância). Posteriormente, recebemos um convite para produzi-la na Cervejaria Nacional, um lote de 700 litros. O lançamento foi um sucesso e a cerveja acabou super rápido. Ficamos tão felizes com o resultado que decidimos levar o projeto a sério e nos tornamos uma cervejaria cigana. Esta primeira receita que produzimos era a Wasabiru, que continua no nosso portfólio até hoje”, contam.
Dá pra entender o sucesso. Eu provei a Wasabiru e é incrível. Tem um retrogosto de wasabi, sem ficar enjoativa. As cervejeiras usam wasabi a raiz japonesa em pó na composição. Nem precisa dizer que harmoniza perfeitamente com sushi e sashimi, né? Elas também recomendam testar com tempura, aquela fritura japonesa de legumes e frutos do mar. 

Cerveja com gengibre e casca de laranja da Japas

Cerveja com gengibre e casca de laranja da Japas

Divulgação/ Renata Monteiro


O Japão em lata
As cervejas da Japas sempre levam algum sabor ou conceito do Japão. “Por exemplo, a Kawaii (que quer dizer algo fofo) foi criada para mostrar todo o movimento "cute" que existe no Japão, principalmente no bairro de Harajuko, mas que cada vez mais cresce no Brasil. As frutas usadas (framboesa e amora) não são japonesas, mas são os ingredientes principais que dão a cor rosa à cerveja, resultando num conjunto todo "Kawaii" para a bebida. Em compensação, nada de deixar a cerveja docinha. Resolvemos escolher uma NE IPA como base para dar um contraponto na receita. A Kasato Maru, nossa cerveja em comemoração aos 110 anos da imigração, levou em seu nome o primeiro navio que trouxe os imigrantes japoneses para cá. Acabamos escolhendo uma fruta que também veio de lá e se adaptou bem por aqui, assim como os imigrantes, que foi a dekopon (uma tangerina japonesa), além de super combinar com o estilo da cerveja uma NEIPA”, explicam.
As meninas fabricam as cervejas no Brasil e há cerca de um ano e meio começaram a produzir também nos Estados Unidos (lá, distribuem em 5 estados Nova Iorque, Oregon, Massachusetts, Maine e Rhode Island).  Por aqui, elas fizeram uma parceria com a Cervejaria Dádiva, para usar o complexo de produção que fica em Várzea Paulista, no interior de São Paulo -  que me leva a apresentar a segunda entrevistada dessa coluna especial do Dia Internacional da Cerveja. Luiza Tolosa, a sócia da Cervejaria Dádiva.

Luiza Tolosa - sócia da Cervejaria Dádiva

Luiza Tolosa - sócia da Cervejaria Dádiva

Divulgação


Uma dádiva enlatada
Tive o prazer de conhecer a Luiza Tolosa em um curso de cervejaria para mulheres, oferecido pela Ambev, antes da pandemia. Incríveis os conhecimentos que ela trouxe sobre fermentação, amargor e composição da bebida. A Dádiva é reconhecida no mercado pela inovação nos sabores. A administradora de empresas, de 32 anos, decidiu entrar para esse mundo porque queria empreender e trabalhar com produtos artesanais. Acabou identificando, na cerveja artesanal, uma oportunidade de mercado. Deu certo. Hoje, a Dádiva produz cerca de 50 mil litros de cerveja por mês. Além do Brasil inteiro, distribui para a Holanda, Suíça e Paraguai. Atualmente produzem aproximadamente 50 mil litros por mês.
Já fui a bares e ouvi de donos que servem a cerveja da Luiza que ela é uma “gênia”. Compartilhei isso com ela e perguntei se demorou para ter esse feedback positivo. “A Dádiva tem 6 anos e há este tempo estamos trabalhando para construir uma marca sólida, baseada na qualidade e inovação. Não acredito em encurtar caminhos. Acredito em trabalhar com ética, verdade e uma boa dose de coragem. Se estamos colhendo frutos hoje, é porque começamos a plantar esta árvore há muito tempo”, conta.
Parte da dificuldade do negócio cervejeiro está no fato de ser mulher à frente de uma área tradicionalmente masculina. Tanto as garotas da Cervejaria Japas, quanto a Luiza, enfrentaram obstáculos nesse sentido. “A atuação das mulheres no mercado cervejeiro tem aumentado bastante em diferentes áreas das cervejarias, como produção, qualidade, manutenção, logística e em cargos de liderança. A maioria das mulheres que trabalham com cerveja já passou por algum tipo de preconceito no trabalho, por isso, sempre é importante não só colocar em pauta, mas conscientizar nossos parceiros sobre priorizar contratações e formar cada mais mulheres nesse setor”, defendem Yumi, Maíra e Fernanda.
A mestre-cervejeira da Dádiva explica que o preconceito acontece não só dentro do ambiente de trabalho.  “Infelizmente vivemos em uma sociedade machista e este tipo de preconceito ainda está enraizado. Já enfrentei preconceito em diversas situações, dentro da fábrica, com clientes, e fora dela também, principalmente em eventos. Ver mulheres trabalhando com cerveja, especialmente na produção/ em fábrica ainda é algo que causa espanto. Felizmente, muitas mulheres têm conseguido mostrar que podemos trabalhar com o que quisermos, na área que quisermos. Ainda existem muitas cervejarias que colocam obstáculos para a contratação de mulheres para determinadas áreas. Falar sobre isso e mostrar que isso é possível ajuda a quebrar estas barreiras”, completa Luiza.
Coragem e ousadia. Uma das cervejas mais desafiadoras e deliciosas que eu tomei na vida foi a Pink Lemonade com lactose, da Dádiva. Sim. Cerveja com lactose! Se nunca tomou, experimente. Sem perder a característica de cerveja, ela desce macia e com aquele azedinho de uma bela sour. A cor é linda. O rótulo então, como a maioria das latas da Dádiva, é uma obra de arte – desenhada pelo designer da cervejaria, o Nani. “Faz parte do nosso DNA criar novas cervejas e fazer lançamentos com frequência. O meu sócio e mestre-cervejeiro da Dádiva, Victor Marinho, é aficionado por cerveja e por inovação. É ele quem traz este tipo de inspiração e ideias para produzirmos novas cervejas. Estas ideias surgem através de muita pesquisa e conhecimento”, revela Luiza.
E como estão os lançamentos dessas cervejeiras profissionais para os próximos dias? Aqui abro espaço para cada uma vender o peixe: afinal, ninguém melhor do que o criador para falar sobre a criatura.

Ice Cream - lançamento da Dádiva

Ice Cream - lançamento da Dádiva

Divulgação


Lançamentos
A Dádiva está com duas novidades, A English Pale Ale e a Ice Cream. Pergunto se já dá pra comprar e o que chama a atenção nelas: “Sim, as duas estão disponíveis em e-commerces e lojas especializadas em cerveja artesanal pelo Brasil todo.  A English Pale Ale é uma cerveja leve, com amargor presente e de uma drinkability absurda. É um estilo que há muito tempo não se vê sendo lançado por cervejarias e, na minha opinião, infelizmente. Uma cerveja deliciosamente gostosa de se beber! A Ice Cream é uma explosão de sabores. Tem lactose, maracujá e manga. Parece um sorvete com muita fruta! Suculenta é a melhor forma de descrevê-la”, conta Luiza.
Já as sócias da Japas explicam que as cervejas são divididas em duas linhas: a linha básica, em estilos clássicos com adição de ingredientes que realçam as características dos estilos. Esta linha é produzida continuamente e está disponível o ano todo. E há uma segunda linha - sazonal – com edições até durar o estoque. Nelas há ingredientes que muitas vezes também são sazonais e raros, como o yuzu (cítrico japonês), dekopon (tangerina japonesa) e shiso (folha aromática usada em sushis). “Temos mais de 25 cervejas de linha, sazonais, colaborativas e edições festivas”, explicam.
À vista duas novidades:  “Uma é relançamento, mas é a mais pedida de todos os lançamentos da Japas. Lembra da Kawaii (falamos mais acima)? Então, os pedidos de retorno dessa receita foram tantos que resolvemos relançar essa fofura de cerveja. A Kawaii é uma New England India Pale Ale de 6,4% de álcool, com adição de framboesa e amora na receita, de amargor médio e cor rosada, ela é super saborosa e tem uma textura aveludada. Lógico que pra deixar o público feliz em dobro, também iremos lançar a Purple Kawaii, essa sim uma versão totalmente nova da primeira receita, só que agora mais roxinha com um toque de mirtilo e jabuticaba”, completam.

No dia internacional da cerveja, nada melhor do que mulheres cervejeiras que estão ganhando o Brasil e o mundo. Deixo aqui o link para os perfis da Japas e da Dádiva para vocês descobrirem onde podem comprá-las.

Se quiserem saber mais, entrem lá no meu instagram, o @ehdecomer, que eu sempre posto as cervejas e comidas que eu experimento. Vou colocar um conteúdo extra, em breve, com trechos não publicados aqui da entrevista com as Japa`s.