Cervejaria cria bebida que muda de preço de acordo com desmatamento

Amazônica, da Colorado, vai ter preço de mercado que oscila conforme a floresta é devastada. Com a iniciativa, a empresa leva para a mesa do bar a discussão sobre a destruição da floresta.

Cervejaria traz discussão sobre desmatamento da Amazônia para mesa de bar

Cervejaria traz discussão sobre desmatamento da Amazônia para mesa de bar

Arquivo R7

A ideia pode até soar marqueteira, mas dificilmente se vê empresas do nível da Ambev comprometendo verba, funcionários, infraestrutura e equipe de comunicação para tentar discutir a devastação da floresta.  A ação eleva a discussão de desenvolvimento sustentável.  Desde a iniciativa de se colocar a questão sob um novo holofote, até a utilização de ingredientes genuinamente brasileiros na composição da bebida mais apreciada no país.
Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, a taxa de desmatamento na Amazônia aumentou 34% nos últimos 12 meses, em comparação com o mesmo período do ano anterior (dados de agosto). Mais de 9,2 mil quilômetros quadrados de floresta foram derrubados nesse último ano (uma área equivalente a seis vezes o tamanho do município de São Paulo) segundo as imagens de satélites do INPE. E como a Colorado pretende trazer isso ao público? Vem comigo....

Nova Colorado vai mudar de preço conforme desmatamento

Nova Colorado vai mudar de preço conforme desmatamento

Divulgação


A Amazônica não é a primeira cerveja elaborada com trigo da Colorado, a Appia é.  Mas é a primeira witibier. Na composição vai farinha de babaçu, semente de pacová e casca de limão. Conversei com o mestre cervejeiro da marca, o engenheiro de alimentos, Pedro Ivo de Oliveira Pedrosa. Ele explicou como esses ingredientes entraram na fórmula do novo rótulo, que tem edição limitada de 14 mil latas (por enquanto).
“A farinha de babaçu é usada como fonte de açúcar, no processo de fermentação. Ela dá, ao lado do malte de trigo, a turbidez da cerveja, mas traz também equilíbrio e leveza”, conta.
“O pacová é uma planta conhecida dos brasileiros como ornamental, usada na decoração de casas. Mas o que muita gente não sabe é que a semente do pacová é extremamente aromática”, completa.

Pacová

Pacová

Divulgação


Pra quem nunca viu um pacová, sinta-se apresentado na foto ao lado. Certamente você já viu esse vaso em alguma casa.
Pedro conta que eles substituíram ingredientes tradicionais de uma cerveja de trigo, por elementos amazônicos: “Uma witibier clássica leva casca de laranja, malte de trigo e semente de coentro. A nossa a gente traz casca de limão e semente de pacová, além da farinha de babaçu“.
Muita gente toma witibier com uma rodela de limão siciliano. Perguntei ao mestre cervejeiro se deveríamos fazer o mesmo com a nova Colorado. Ele disse que não. Na opinião dele, a cerveja é boa pura: “Se você colocar a rodela de limão o único aroma que vai vir na hora de tomar a bebida é o de limão siciliano”.
Segundo Pedro, a Amazônica é uma cerveja fácil de beber, refrescante, combina com o calor (causado pelo efeito estufa e desmatamento, diga-se de passagem) e tem 9IBU, ou seja pouco amargor.

Pedro Ivo Pedrosa - mestre cervejeiro

Pedro Ivo Pedrosa - mestre cervejeiro

Divulgação


“Desde o início, quando me falaram do projeto, deu muita vontade de fazer uma coisa boa. É um dos projetos mais legais que eu já trabalhei na Colorado”, conta o cervejeiro, que está no time da cervejaria desde 2014, antes mesmo da aquisição da Ambev.
Além da importante discussão ambiental, a nova cerveja terá 100% do valor arrecadado nas vendas destinado a mais de 600 famílias da Rede de Cantinas da Terra do Meio, no Pará, segundo a multinacional. A MapBiomas desenvolveu um Índice de Reajuste de Preços da Amazônia (IRPA) que compara a média do desmatamento semanal das últimas quatro semanas e o mesmo período do ano anterior. A cada semana o índice será calculado e indicará o reajuste a mais ou a menos que será aplicado ao preço da bebida.
“Criar cerveja não é muito fácil. A gente tem que pensar no gosto do consumidor de uma maneira geral, não só do público cervejeiro. Foram oito protótipos. Usamos casca de laranja, depois casca de limão, trocamos percentuais de trigo, pacová e babaçu. Ao todo fizemos 6 meses de testes. Espero que o pessoal realmente valorize o projeto, porque é para um bem maior e a cerveja está muito boa. Fico feliz que seja uma marca de cerveja à frente de uma questão tão importante, como o desmatamento”, finaliza.
A gente que gosta de uma cerveja boa e gelada espera que a Amazônica fique bem baratinha...não só pelo prazer de beber, mas pela alegria de ver o nosso maior tesouro ser menos desmatado. A floresta precisa de aliados. Sejam eles de um poderoso time de marketing da Ambev, de mestres cervejeiros apaixonados pela profissão como o Pedro ou de bons bebedores de cerveja como eu (e muitos dos caros leitores). Não acredito que a iniciativa impactará diretamente na redução do desmatamento. Mas ao promover a discussão, mesmo que em uma mesa de bar, a Colorado merece aplausos. Me segue lá, no meu insta, o @ehdecomer. Vou deixar lá minha opinião sobre essa nova cerveja e também algumas imagens da bebida. Ah, quem quiser experimentar a Amazônica, saiba que já está disponível na loja online da cervejaria. Clica aqui. O preço da lata no início da semana era R$5,49, mas ontem, diante de novos dados de desmatamento houve um aumento de 45%. Agora a cerveja sai por R$8,01.