É de comer A crise econômica e os impactos da falta de vitamina B12 nas crianças

A crise econômica e os impactos da falta de vitamina B12 nas crianças

Estudo inédito rastreou pela primeira vez o nível de vitamina B12 no sangue de crianças brasileiras de até 5 anos. O nutriente é importante no combate à anemia e bom funcionamento dos neurônios

  • É de comer | Camé Moraes para o R7


Pelo menos uma em cada dez crianças brasileiras (14,2%), de até 5 anos, tem deficiência de vitamina B12, segundo dados do Enani, um estudo inédito que rastreia nutrientes necessários ao desenvolvimento infantil por meio de coleta de sangue. A pesquisa foi encomendada pelo Ministério da Saúde e divulgada nesta semana.
Os dados mostram que a situação é ainda mais preocupante na região Norte, onde essa deficiência atinge 3 em cada dez crianças da mesma faixa etária.

A busca pelas sobras e ossos: proteína animal é a principal fonte de vitamina B12

A busca pelas sobras e ossos: proteína animal é a principal fonte de vitamina B12

Reprodução Jornal da Record - Reportagem Thais Furlan


Mas o que é vitamina B12? E o que as imagens recentes de pessoas se aglomerando na fila dos ossos pelo país têm a ver com isso?
As fontes de vitamina B12 são principalmente os alimentos de origem animal: carne bovina, suína, fígado, vísceras e peixes – justamente o que ficou bem mais caro e inacessível durante a pandemia para grande parte da população.
Esse tipo de vitamina é superimportante para evitar a anemia, aumenta o metabolismo do corpo, diminui a sensação de cansaço, protege os neurônios e a gestante de complicações na gravidez. Enfim, tudo que é necessário a bebês e crianças (e adultos). Tanto que a OMS até recomenda suplementação para veganos.
E é justamente a fonte desse nutriente que mais está faltando no prato das famílias brasileiras —  empobrecidas na pandemia.
Na semana passada, o Jornal da Record trouxe uma matéria que revelava que até mesmo a carne de 3ª ficou cara demais para os mais carentes. A carcaça de frango teve um aumento de 45% nos açougues de São Paulo.


Ontem, outra reportagem trouxe flagrantes deprimentes de famílias buscando restos de alimentos na Ceagesp, a maior central de distribuição de alimentos da América Latina, na capital paulista, e no Mercadão de São Paulo. Gente que revira o lixo em busca de ossos, para suprir o mínimo de proteína necessária para o dia a dia. A repórter Thaís Furlan narrou uma situação dramática de uma catadora de recicláveis: a mãe foi obrigada a mandar o filho morar com o irmão, porque não tinha o que colocar no prato da criança. Veja abaixo:


O coordenador nacional do Enani-2019, Gilberto Kac, também destacou durante a apresentação do estudo  que a deficiência da vitamina é um sintoma da desigualdade e do cenário de insegurança alimentar que vivemos neste momento.
“Os dados refletem a situação socioeconômica das famílias brasileiras e corroboram o cenário de insegurança alimentar descrito pelo Enani-2019. A dificuldade de acesso a esses alimentos pode estar relacionada à alta prevalência de deficiência de vitamina B12 nessa faixa etária”, esclarece Kac.

O levantamento analisou amostras de sangue de quase 15 mil crianças de até 5 anos, de 123 cidades de todo o Brasil, entre fevereiro de 2019 e março de 2020 – ou seja, antes do início da pandemia. Não precisa ser um gênio para afirmar que se o estudo fosse feito neste ano mostraria que a situação está ainda pior — as restrições de alimentos põem quase metade das crianças brasileiras em risco alimentar.

A novidade da pesquisa é que esta foi a primeira vez que a vitamina B12 foi avaliada, em âmbito nacional. A falta de vitamina foi maior em crianças com idade entre 6 meses e 2 anos (25,4%). Também foram observadas diferenças estatisticamente significativas entre as faixas etárias para a região Nordeste (19,9% vs. 7,6%, respectivamente), Sudeste (27,8% vs. 7,0%, respectivamente), Sul (18,8% vs. 5,0%, respectivamente) e Centro-Oeste (25,3% vs. 5,3%, respectivamente).

Pessoas carentes buscam restos de comida no Mercadão de São Paulo e na Ceagesp

Pessoas carentes buscam restos de comida no Mercadão de São Paulo e na Ceagesp

Reprodução Jornal da Record - Reportagem Thais Furlan

Para o economista Nelson Marconi, professor da FGV, este é um cenário que não vai se resolver rapidamente:

“O problema na inflação vai continuar no ano que vem. Infelizmente, a gente vai ter durante mais um tempo essa combinação de inflação alta e desemprego alto, que é a pior possível para a economia e afeta muito fortemente os menos favorecidos, os mais pobres”, explica Marconi.

O Enani-2019 está disponível aqui  e foi encomendado pelo Ministério da Saúde e coordenado pelo Instituto de Nutrição Josué de Castro da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em parceria com a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), a Universidade Federal Fluminense (UFF) e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda o consumo diário médio de 2,4 microgramas (mcg) de vitamina B12 por adultos. 

Deixo aqui abaixo uma tabelinha com alimentos com vitamina B12 e as quantidades por 100g:
Bife de fígado (100 gramas) = 112 mcg de B12
Marisco (100 gramas) = 99 mcg de B12
Ostra (100 gramas) = 27 mcg de B12
Coração de boi (100 gramas) = 14 mcg de B12
Salmão (100 gramas) = 2,8 mcg de B12
Queijo fresco (100 gramas) = 1,8 mcg de B12
Ovo (100 gramas) = 1,1 mcg de B12
Queijo mozarela (100 gramas) = 0,9 mcg de B12.
Leite (110 gramas) = 0,6 mcg de B12
Frango (100 gramas) = 0,3 mcg de B12
Fonte: Hospital Sírio Libanês


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