Sua posição profissional lhe traz mordomias? Cuidado!

 Quem nunca presenciou a ascensão profissional de alguém que confundiu sua posição privilegiada com ser alguém melhor do que os outros?

Há quase 20 anos perdi tudo o que tinha quando entrei em um negócio que não deu certo. E, como se isso fosse pouco, ainda tive de arcar com uma dívida equivalente a 150 mil dólares (cerca de 650 mil reais na cotação de 11/02). Apesar de ter sido a época mais difícil da minha vida, aprendi lições importantíssimas que fizeram valer cada centavo que perdi.

Antes da derrocada, praticamente em qualquer entrada que eu apontasse meu carro de luxo, os portões se abriam e surgiam manobristas sempre me chamando de “dona” e “senhora”. Nas viagens a trabalho eu me limitava receber o localizador do voo categoria business reservado por alguma secretária e a esperar pelo chofer que me conduzia ao aeroporto e carregava minha bagagem até a entrada do embarque.

No serviço de bordo jamais havia copos de isopor ou talheres de plástico e os comissários me davam mais atenção do que o necessário. Chegando ao destino, lá estava um motorista sempre a postos que me levava a todos os lugares sem que eu tivesse de dar qualquer instrução.

Lições preciosas em tarefas cotidianas

Lições preciosas em tarefas cotidianas

Mohamed Hassan/Pixabay

Quando resolvi deixar a multinacional e empreender por conta própria não levei muito em conta de que toda aquela pompa e circunstância não eram para mim, mas sim, para o cargo que eu ocupava. Depois de perder tudo é que a ficha realmente caiu. Os portões não se abriam mais e, ainda que eu me apresentasse como “ex-isso” e “ex-aquilo”, não tinha mais nada de “dona” nem de “senhora”. Chegou a faltar dinheiro até mesmo para ônibus e metrô, coisas que antes eu nem sequer sabia quanto custavam.

E foi andando a pé, carregando bolsas pesadas com mercadorias que eu tentava vender para levantar algum dinheiro que me dei conta de que nunca carregaram as minhas bagagens, mas sim, as da executiva que ocupava aquele cargo. Na realidade, nada daquilo era para mim. Nunca foi. Assim como nunca será para qualquer pessoa que ocupar aquele cargo, pois toda a mordomia é para a função, não importando quem a exerça.

Anos se passaram e me peguei um dia desses varrendo a casa bem vestida, maquiada e com o cabelo feito. Eu havia chegado de uma gravação na TV e, cheia de pressa para deixar a casa em ordem, fui logo colocando a mão na massa. Ao passar em frente a um espelho e ver o contraste da minha imagem toda produzida com uma vassoura na mão, lembrei-me de que eu não sou a “moça da televisão”, mas sim, a mulher que varre a casa, assim como qualquer outra.

Saber que não sou melhor do que ninguém e que sempre serei uma pessoa comum, independentemente de fazer coisas incomuns, é uma lição que vale muito mais do que 150 mil dólares, mas que qualquer pessoa inteligente pode aprender de graça.

Patricia Lages

É jornalista internacional, tendo atuado na Argentina, Inglaterra e Israel. É autora de cinco best-sellers de finanças e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. Ministra cursos e palestras, tendo se apresentado no evento “Success, the only choice” na Universidade Harvard (2014). Na TV, apresenta o quadro "Economia a Dois" na Escola do Amor, Record TV. No YouTube mantém o canal "Patricia Lages - Dicas de Economia", com vídeos todas as terças e quintas.