Patricia Lages Fazer propaganda é uma coisa, fazer a coisa acontecer é outra

Fazer propaganda é uma coisa, fazer a coisa acontecer é outra

Depois de todo marketing feito pelo governador João Doria em torno da CoronaVac, Butantan fica sem insumos e produção para  

As coisas não andam muito boas para o padroeiro da vacinação. É que desde o último domingo (17), o Instituto Butantan está com as máquinas paradas por falta de insumos chineses. Onde estão os insumos? Na China, claro. E por que não estão a caminho do Brasil? Bem, aí depende do ponto de vista de cada um.

Segundo Dimas Covas, presidente do instituto, o envio depende do aval de órgãos do governo chinês em quatro instâncias e a remessa para São Paulo estaria ainda aguardando o parecer da última delas. Porém, para o messias paulista, a carga está presa na China porque o governo federal está fazendo corpo mole. “São Doria” cobra celeridade e seriedade de Jair Bolsonaro, como se fosse seu funcionário, para desembaraçar a matéria-prima. Só não fica claro o porquê de a União auxiliar nas negociações, afinal o gestor sempre alardeou aos quatro ventos que era capaz de resolver tudo por conta própria.

João Doria em vacinação no interior de São Paulo: marketing e batata quente no colo dos outros

João Doria em vacinação no interior de São Paulo: marketing e batata quente no colo dos outros

Governo do Estado de São Paulo - 21.01.2021

E para complicar ainda mais a missão do paladino da saúde, o filho do presidente e o chanceler Ernesto Araújo surgem fazendo críticas ao embaixador chinês o que, segundo Doria, estaria causando tensão entre os governos e atrasando a liberação da carga. É... a vida de quem luta com todo empenho para “salvar vidas” pode ser muito ingrata, Afinal, nem mesmo Botafogo, codinome de seu aliado Rodrigo Maia na folha de pagamento de propinas da Odebrecht, concorda com a acusação, pois declarou que o atraso não tem nada a ver com questões políticas.

O problema é que Doria se empenhou tanto em sua campanha de marketing, com direito a “choro” e tudo mais, que esqueceu-se de que, quando se divulga um produto, deve-se ter condições de entrega-lo. Ainda mais quando se vende a ideia de que tal produto é a única esperança de vida de uma população abandonada por um governo que, segundo declaração do gestor, “gosta de cheiro de morte”.

Mas governador-gestor-salvador parece não gostar mesmo é do cheiro de responsabilidade, pois ao menor sinal de problemas, logo joga a batata quente no colo de seus adversários políticos. Ao surgir o primeiro entrave a, até então, “vacina de São Paulo” virou “vacina do Brasil” e, portanto, quem tem de resolver a falta de matéria-prima é o presidente. “Se a vacina agora é do Brasil, o nosso presidente tenha a dignidade de defendê-la”, disse Dimas Covas em um evento que contou com a presença de Doria no dia 19, em Ribeirão Preto, interior do estado.

Seja lá como for o desenrolar da história, eis aqui um spoiler dos possíveis desfechos: se tudo der certo, o gestor posará como responsável pelo sucesso, se o atraso persistir e mais críticas surgirem, ele dará um jeito de fazer todas elas caírem no colo do presidente e se as coisas saírem do controle, ele some do mapa até que apareça uma oportunidade de ressurgir mostrando todos os seus dotes cênicos, como vimos durante a cerimônia de vacinação no domingo passado. Estratégia é tudo na vida, não é mesmo?

Autora

Patricia Lages é autora de 5 best-sellers sobre finanças pessoais e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. É palestrante internacional e comentarista do JR Dinheiro, no Jornal da Record

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