Patricia Lages Falso discurso de inclusão trabalha apenas para excluir

Falso discurso de inclusão trabalha apenas para excluir

A inclusão é uma das bandeiras que mais tremulam por todos os lugares, mas o resultado desse discurso vazio é uma exclusão cada vez maior.

Esta semana me deparei com um comentário daqueles que nos fazem menear a cabeça. Um simples anúncio de sapatos de uma loja on-line levou várias pessoas a enxergarem uma divisão racial totalmente irracional. Das cinco imagens que se intercalavam, três davam close nos sapatos e, em duas delas, via-se uma modelo oriental usando os calçados.

Isso foi suficiente para que alguém comentasse que os sapatos eram lindos, mas era uma pena que fossem “apenas para mulheres brancas”. E, como não poderia deixar de ser, abaixo desse comentário havia vários outros concordando com a exclusão das negras com frases do tipo: “não nos querem como clientes” e “ainda não entenderam que também temos bom gosto”.

Em certos conflitos, os dois lados saem perdendo

Em certos conflitos, os dois lados saem perdendo

Pixabay

Chega a ser absurdo como em plena “era da inclusão” e da “tolerância” as pessoas se autoexcluam e não tolerem nem mesmo um simples anúncio de sapatos... De tanto levantarem bandeiras em prol da igualdade, o que se vê é o efeito contrário. Jamais eu imaginaria que o fato de um anúncio exibir uma modelo oriental me ofende ou me exclui, uma vez que sou branca. O fato de serem calçados femininos demonstra que são para qualquer mulher que se identifique com o produto e não necessariamente com a cor da pele da modelo. Mas há quem veja em simples fotografias toda uma “narrativa opressora” que tenta diminuir o valor da mulher negra.

Mas isso não é nada se comparado à polêmica da semana, que ficou por conta do lançamento de uma esponja de limpeza chamada Krespinha. O nome do produto foi considerado uma referência negativa aos cabelos afro, mesmo que todo mundo saiba que cabelos crespos não são exclusivos de pessoas negras. É triste ver como simples palavras da Língua Portuguesa estão sendo taxadas como preconceituosas quando, na verdade, exprimem significados que até ontem eram óbvios. Crespo é um adjetivo que identifica algo com “textura ondulada, anelada ou frisada” e isso se refere a qualquer coisa que possua essas características. E, em se tratando de cabelo, desde quando os crespos rebaixam a imagem de alguém?

Será mesmo que usar uma esponja de textura crespa é ser preconceituoso? Será que mudar o nome do produto fará realmente alguma diferença? Não há o menor sentido nesse tipo de associação, mas, apesar disso, todo barulho que foi feito nas redes sociais acusando a fabricante de preconceituosa e racista a fez recolher o produto. E o que me pergunto é: o que isso trouxe de positivo à luta contra o preconceito racial?

Não estou dizendo que preconceito não existe, mas sim, que a forma como os movimentos tentam combatê-lo – na base da imposição e causando inúmeros prejuízos – não tem se mostrado eficaz. Aliás, quem sofre os maiores prejuízos são os próprios negros, pois qualquer associação – existente ou não – pode ser considerada negativa e se transformar em um problema enorme. Infelizmente há empresas que preferem não contratar negros justamente por temerem que qualquer medida comum do dia a dia – como uma chamada de atenção, um remanejamento ou uma demissão – termine em acusações de racismo e seja tratado pela justiça como um crime.

Igualdade é algo que simplesmente não existe, pois ninguém é igual a ninguém e é isso que faz de nós, seres humanos, criaturas tão interessantes. A verdadeira diversidade é unir as diferenças de forma que elas nem sequer sejam notadas, mas o que os movimentos pela igualdade têm feito hoje em dia é exatamente o contrário e os resultados estão bem claros para quem quiser ver.

Estou ciente de que, por mais que este texto tenha a intenção de mostrar que essa guerra toda não deveria existir, corro o risco de que distorçam as palavras e me acusem de uma série de coisas. Mas enquanto podemos expressar nossas opiniões, devemos fazê-lo com respeito e responsabilidade, mas sem medo de represálias ou de sermos “cancelados” por alguns movimentos. É preciso aproveitar a liberdade de expressão que ainda nos resta antes que o “politicamente correto” – que já limita o que podemos falar – atinja seu objetivo maior e limite até mesmo o que podemos pensar. O preço da liberdade é a eterna vigilância.

Autora

Patricia Lages é autora de 5 best-sellers sobre finanças pessoais e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. É palestrante internacional e comentarista do JR Dinheiro, no Jornal da Record.

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