Patricia Lages Doria não perde chance de politizar a pandemia, mas diz que se apoia na ciência

Doria não perde chance de politizar a pandemia, mas diz que se apoia na ciência

Governador de São Paulo anuncia “fase vermelha”, contraria o secretário estadual de Saúde, que não apoia o lockdown e critica o governo federal

Governador João Doria na coletiva de imprensa desta quarta (3)

Governador João Doria na coletiva de imprensa desta quarta (3)

Governo do Estado de São Paulo - 03.03.2021

Se tem uma coisa que João Doria fez muito bem nos últimos 15 meses de combate à pandemia foi culpar o governo federal pelo que acontece em seu próprio estado. Apesar de ter carta branca, dada pelo STF, para tomar as decisões que bem entendesse (como de fato o fez), segundo o governador, todo problema vem da “falta de gestão federal”.

É como se alguém recebesse dinheiro para consertar o telhado da própria casa, torrasse o valor em outras coisas e culpasse quem deu o recurso pelos estragos depois do temporal. Mas é claro que quem corta verba de saúde em plena pandemia e aumenta os gastos com publicidade – atitudes do gestor-salvador – precisa jogar os holofotes sobre o palco alheio.

Como já era de se esperar, amanhã teremos mais uma ação de marketing, quando Doria estará em frente às câmeras para receber o novo lote de insumos para a produção de mais 8 milhões de doses da Coronavac. Aí é hora de atrair para si os holofotes e fazer aquela publicidade, afinal de contas, 2022 está logo ali e esse é o maior objetivo de todo esse teatro onde as marionetes somos nós.

Em entrevista à jornalista Christina Lemos na manhã de hoje, Doria tornou a dizer que só toma medidas baseadas em parâmetros técnicos. “Eu não tomo decisões. Sigo orientações. Sempre amparado na ciência”, afirmou. Mas qual é a ciência por trás do lockdown? Mesmo depois de todas as tentativas de incutir na cabeça das pessoas o #fiqueemcasa, não há nenhum estudo científico que comprove e garanta a eficácia da medida. Nem um sequer.

Se, de fato, o governador segue orientações, por que não tem dado ouvidos ao próprio secretário de Saúde, Jean Gorinchteyn, que declarou ser contra o lockdown? Em entrevista à rádio CBN, o secretário afirmou: “O lockdown no nosso país, não temos condições de fazer. As pessoas vão morrer de fome. Vamos ter um problema civil” e acrescentou que “O Brasil tem uma questão social e econômica muito peculiar. Fazer o lockdown significa colocar uma parcela vulnerável numa situação difícil sem o auxílio (emergencial). Eu vejo que alguns estados chegaram numa situação limite.”

E se o governo de São Paulo realmente se baseasse em parâmetros técnicos, deixaria de fingir que não sabe que todas as medidas de restrição, como toque de recolher e as fases restritivas anteriores, não surtiram o efeito prometido. Afinal, os dados apontam que o número de internações continuou a crescer, inclusive em cidades como Araraquara, que optou por um lockdown bastante rígido.

A única garantia que temos com esse tipo de medida onde não há ciência alguma – se houvesse já teria sido amplamente publicada – é a da quebra da economia, aquela que “a gente vê depois” e se exime da responsabilidade pelas mortes colocando a culpa no governo federal. Quer mais politização do que essa?

Autora

Patricia Lages é autora de 5 best-sellers sobre finanças pessoais e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. É palestrante internacional e comentarista do JR Dinheiro, no Jornal da Record.

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