Análise: Você sabe com quem está falando?

Frase tem sido passada de pais para filhos perpetuando a falsa ideia de que há seres superiores aos outros

A mudança passa pela educação das crianças

A mudança passa pela educação das crianças

Lee Murry/Pixabay

As melhores sugestões de resposta que já ouvi para a famosa pergunta “você sabe com quem está falando?” foram dadas pelo filósofo Mario Sergio Cortella. Uma delas sugere que, quando você ouvir a pergunta, se prontifique a ajudar, afinal, o questionamento indica que a pessoa perdeu a memória e não se lembra quem é. A outra sugestão segue mais o estilo à queima-roupa: “você é o vice-treco do subtroço, sem crachá”.

Ah... o deboche! Muitas vezes ele é a única forma de mantermos a sanidade. Até porque, ao vermos a geração atual, que se diz tão adepta da igualdade, trazendo a perguntinha infame na ponta da língua, corremos o risco de perder completamente a fé na humanidade. Mas acredito que ainda há esperança, desde que haja uma maior conscientização da sociedade, principalmente por parte dos pais.

Observando o comportamento de dois casais de amigos com filhas pequenas, percebi a tamanha mudança que pode haver na educação das crianças pelo simples uso do raciocínio (e não por repetir o que a maioria faz). No apartamento de um dos casais, a impressão que se tinha é que ali habitavam uns dez bebês, e não apenas uma. Todas as áreas eram ocupadas por brinquedos e por todo tipo de acessório infantil. “Aqui a casa inteira é da ‘pinxejinha’, ela domina!”, dizia o pai, enquanto liberava espaço no sofá para que todos pudessem se sentar.

Dos três quartos, dois eram da menina que ainda não tinha completado quatro anos de idade: um para dormir e outro para sua brinquedoteca/closet. Sim, a bebê já tinha um closet do piso ao teto para armazenar seus “lookinhos” do dia e bombar no Instagram. E, falando em fotos, excluindo uns poucos porta-retratos da família, todas as demais eram da bebê. Cada “mesversário” resultava em uma enxurrada de fotos que, segundo os pais, eram tão especiais que não dava para escolher uma ou outra. Era preciso exibir todas.

O outro casal, também pais de uma menina na mesma faixa etária, tinha um apartamento completamente diferente. Embora menor, não havia aquela overdose de coisas espalhadas por todos os lados. A bebê dividia o espaço com os pais e sabia que devia manter suas coisas em seus devidos lugares. Além disso, havia uma regra: a cada brinquedo novo era preciso doar um antigo. Assim, a menina cuidava de tudo o que ganhava para não doar coisas quebradas para outra criança.

Passando pelo corredor, depois de conhecer o quartinho da bebê, vi um painel de fotos vazio. A mãe explicou que a ideia inicial era fazer uma linha do tempo só com fotos da filha, afinal, é o que “todo mundo faz”, mas que, pensando melhor, resolveu colocar fotos da família toda. O painel começaria pelo namoro, noivado e casamento dos pais, passaria pela primeira casa, a mudança para o apartamento próprio, a fase de gestação, o nascimento da bebê e, aí sim, viriam fotos de fases diferentes da menina. “Queremos que ela se veja como um membro da família e não como o sol do nosso planeta”, completou o pai. 

Uma atitude racional de pais que se preocupam com a formação dos filhos fez toda a diferença. Enquanto uma criança era membro de uma família, igual a todos os outros, a outra era a monarca que reinava sobre seus súditos. Passados alguns anos, adivinhe qual das duas adotou o “sabe com quem está falando”? Vá pelo óbvio e você acertará a resposta facilmente. Educação não é o que se fala, mas sim, o que se vive.

Últimas

    http://meuestilo.r7.com/patricia-lages