Análise: você é o que faz e não o que diz

É comum que as pessoas se autodescrevam como boas, tolerantes, colaborativas, esforçadas. Mas cada um é o que faz e não o que diz fazer

É preciso ter certeza de quem você é

É preciso ter certeza de quem você é

Anna Shvets/Pexels.com

Ao longo da minha carreira já tive de demitir mais de uma centena de pessoas e, por experiência própria, posso dizer que nunca é algo agradável. A primeira vez que tive de fazer isso, sem dúvida, foi a pior. Não dormi nada na noite anterior e perdi totalmente o apetite. A única coisa em que eu pensava era como seria a reação da pessoa? Ela vai ficar triste e chorar? Ou vai fazer um escândalo, me ofender e sair batendo as portas?

Mas foi tudo muito diferente do que imaginei, pois a pessoa deu de ombros, declarou em tom desdenhoso que aquele emprego era insignificante e que não via a hora de “mudar de ares”. Juntou suas coisas prendendo a respiração e, por fim, soltou: “Posso ir agora ou você quer mais alguma coisa?” Não me recordo se respondi algo, mas vê-la ir embora me trouxe um alívio tão grande que, sem perceber, passei a chave na porta como se quisesse garantir que nunca mais teria que realizar uma tarefa tão indigesta. Mas, mal sabia eu que seria a primeira de muitas.

Daí em diante tive experiências das mais diversas. Houve vários casos em que as pessoas saíram felizes por conta da indenização; outros que me ameaçaram de muitas maneiras diferentes; os que agradeceram o “favor” por estarem descontentes, mas sem coragem de se demitir e muitos que choraram copiosamente, enquanto eu não sabia o que fazer ou dizer. A ocasião mais curiosa foi a de uma funcionária que, ao saber que seria demitida, passou a se esconder todos os dias por mais de uma semana. Sabíamos que ela comparecia ao trabalho, pois tínhamos as imagens das câmeras da recepção, porém, ela passava o dia fora da sala, entrando e saindo dos departamentos, sempre contando com a conivência dos colegas, pois era uma pessoa divertida, de quem todos gostavam muito.

O fato é que a moça popular vinha defraudando a empresa havia meses (ou anos) e não era mais possível mantê-la no quadro. Por fim, ao dar de cara comigo em um corredor, eis que ela corre e se tranca na sala de uma colega para tentar evitar o inevitável. Bati à porta e nada. Pedi que ela saísse e nada. Esperei dez minutos e nada. Entrei na sala ao lado e fiquei conversando com uma das gerentes até que abrissem a porta e nada! A situação ridícula se estendeu por mais de três horas até que, acredite ou não, tive de passar a carta de demissão por baixo da porta!

Por mais que as reações tenham sido diferentes, percebi que há um padrão quando esse tipo de coisa acontece e que tem a ver com esta análise: geralmente as pessoas têm uma percepção bastante equivocada de si mesmas. Elas afirmam que sempre foram dedicadas, embora estivessem fazendo seu trabalho com desleixo; que sempre deram o seu melhor, embora tratassem os clientes desrespeitosamente; que fizeram o possível e o impossível em prol da empresa, embora não conseguissem nem sequer ser pontuais.

Até mesmo a “fujona” se posicionou como injustiçada, apresentando justificativas para cada uma de suas várias fraudes, deixando claro que nenhuma delas foi por “vontade própria” e que ela jamais faria aquilo novamente. “Me dá só mais uma chance”, ela suplicava sem parar, enquanto se agarrava a um rádio Nextel dizendo: “você não pode tirar ele de mim, eu preciso falar com as pessoas, eu preciso me comunicar... tudo menos o rádio!” E, decerto, precisava mesmo, pois a conta – paga pela empresa – era surreal. Simplesmente dez vezes maior que a do presidente da companhia...

Depois de adquirir certa experiência, a cada demissão eu apresentava uma relação de motivos pelos quais a pessoa estava sendo desligada. Eram dados, fatos e números reais, mas que as pessoas simplesmente pareciam não acreditar que se tratava delas mesmas. Cada item da lista era confirmado com perguntas diretas, como: “Este atestado médico falso que você usou para ficar dez dias em casa, por conta de uma doença que sua própria mãe confirmou que nunca existiu, seria verdadeiro?” Ninguém negava os motivos, porém sempre havia uma justificativa do tipo “eu não sou assim, eu não faço essas coisas, foram só três ou quatro vezes...”

O que determina quem nós somos é o que fazemos e não o que dissemos que fazemos. Se você se acha caridoso, mas não ajuda ninguém, significa que você não é quem acha que é. Se pensa que é competente, mas vive enrolado e fazendo tudo pela metade, significa que você não é quem pensa que é. Embora estejamos na era do engano, onde quase nada é o que parece, o maior de todos eles ainda é o autoengano.

Últimas

    http://meuestilo.r7.com/patricia-lages