Patricia Lages Análise: viver nas ruas não é o problema, mas apenas a consequência

Análise: viver nas ruas não é o problema, mas apenas a consequência

Alcoolismo, uso de drogas, falta de vínculo familiar e desemprego estão entre as principais causas de se viver nas ruas

Com o desemprego e, sem renda, muitos se viram sem condições de arcar com seus aluguéis

Com o desemprego e, sem renda, muitos se viram sem condições de arcar com seus aluguéis

Cesar Augusto Ramirez/Pixabay

Segundo estimativas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), mais de 221 mil pessoas viviam nas ruas em todo o país, em março de 2020. Com as restrições da pandemia, estimativas apontam um aumento significativo desse número, podendo chegar aos 50%. Para o pesquisador do Núcleo de Pesquisa da População de Rua da Fiocruz, Marcelo Machado, a pandemia não só aumentou, mas também mudou o perfil de quem está atualmente nas ruas.

A ampliação das restrições, incluindo a proibição ao trabalho – mesmo com a observância dos protocolos de segurança – elevaram as taxas de desemprego e, sem renda alguma, muitos se viram sem condições de arcar com seus aluguéis. Infelizmente, a política do “fique em casa” obrigou famílias inteiras a deixarem suas casas ficando muito mais expostas, não só ao vírus, mas a todos os demais perigos que as ruas oferecem.

Além do desemprego, as principais causas que levam as pessoas a viverem nas ruas são o alcoolismo, a dependência química, a perda de um ente querido e a falta de vínculo familiar. São problemas de ordem psicológica e psiquiátrica, coisa que uma vaga em um albergue ou até mesmo a entrega de uma casa não resolvem. O mesmo acontece em relação à pobreza, pois de nada adianta que haja oferta de moradia para quem não tem condições de arcar com as despesas.

Viver nas ruas não é o problema em si, mas apenas a consequência de outros problemas que geralmente os governos ignoram. Oferecer tratamentos longos e caros – e sem garantia de resultado – não é tão atrativo para os políticos quanto divulgar a ampliação de vagas em albergues ou vociferar pelas ruas que alguém tem de colocar um teto sobre as cabeças de quem não tem.

Enquanto os governos ignoram que é preciso tratar as pessoas, esse trabalho acaba ficando por conta de voluntários e principalmente de ações coordenadas por igrejas, como é o caso dos Anjos da Madrugada da Igreja Universal do Reino de Deus. O programa possui mais de mil postos de atendimento espalhados em todos os estados do Brasil e no Distrito Federal, que oferecem comida, corte de cabelo, banho e roupa limpa. Em apenas uma noite é possível atender cerca de 25 mil pessoas.

São 27 mil voluntários que distribuem periodicamente 30 mil refeições e cerca de 3 mil kits de higiene pessoal, além de cortes de cabelo e distribuição de roupas e calçados em bom estado arrecadados em qualquer templo da Universal. Em São Paulo, alguns pontos de atendimento também oferecem o Banho do Bem, por meio de cabines de banho masculinas e femininas com água quente e produtos de higiene, adquiridas por meio de doações. Segundo Renato Cardoso, bispo da Universal, o objetivo do Banho do Bem é auxiliar pessoas em situação de rua a recobrarem a dignidade e poderem buscar um novo emprego para, desta forma, poderem reconstruir suas vidas. Além da assistência material, os voluntários oferecem atendimento espiritual e psicológico, focando as causas dos problemas e não apenas remediando a consequência.

Enquanto isso, além de não fazer o que lhes cabe, governos municipais e estaduais não prestam nenhuma ajuda a programas voluntários como este, ao contrário, há localidades que impõem regras que só atrapalham e prejudicam o trabalho. É preciso que a sociedade abra os olhos e comece a separar aqueles que divulgam ajudas inexistentes ou ineficazes daqueles que de fato ajudam sem se preocupar em divulgar.

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