Análise: Vitimismo não é heroísmo

O vitimismo invadiu nossa sociedade fazendo com que as novas gerações cresçam achando que o mundo todo deve muito a elas. Seria isso algo bom?

Está sendo moldada uma geração que chora e se deprime por qualquer coisa

Está sendo moldada uma geração que chora e se deprime por qualquer coisa

Kat Jayne /Pexels

O título é autoexplicativo: quem é vítima não tem como ser herói, assim como quem é herói não tem como ser vítima. Porém, em uma sociedade que clama aos quatro ventos ser a mais empoderada de todos os tempos, o que impera mesmo é o vitimismo.

E a pergunta é: a quem interessa cultivar esse conceito, principalmente em relação aos mais jovens? Será que é bom para os filhos que seus pais os eduquem para se verem como pessoas injustiçadas? Será que é positivo que crianças e jovens creiam que o mundo deve algo a elas seja lá pelo que for?

Vale fazer um comparativo usando uma situação bem comum. Até algumas décadas atrás, quando um professor reportava aos pais mau comportamento ou notas baixas do filho, as reações dos pais geralmente eram estas:

• Sentiam-se envergonhados por não terem percebido antes;
• Ficavam gratos pela preocupação do professor;
• Viam-se na obrigação de tomar providências para mudar a situação;
• Disciplinavam o filho, mostrando a importância do estudo e do respeito às normas;
• Cobravam e acompanhavam a evolução do filho.

Hoje, se um professor ousar reportar esse tipo de coisa aos pais, as reações são bem diferentes:

• Culpam o professor, a escola e o sistema por não darem ao filho o que ele merece;
• Reclamam por terem sido incomodados com coisas que cabe à escola resolver;
• Ameaçam mudar o filho de escola, afinal, pagam mensalidades caras para não terem dor de cabeça;
• Justificam toda e qualquer falha do filho desautorizando o professor, a escola e a disciplina como um todo;
• Vão à diretoria reclamar do professor que está perseguindo seu filho indefeso.

Como resultado dessa mudança de postura, temos crianças e adolescentes simplesmente insuportáveis, salvo raras exceções. São pessoas cheias de si, que realmente acreditam que o mundo gira em torno delas e que todos devem servi-las.

Mas fica a pergunta: como essas "vítimas" – geradas por essa fábrica de vitimismo que a nossa sociedade se tornou – vão resolver seus conflitos no futuro? Ou elas não passarão por nenhum aperto porque papai, mamãe e o Estado estarão lá para protegê-las de tudo e de todos?

Está sendo moldada uma geração fraca, que ao mesmo tempo que se diz empoderada, chora e se deprime por qualquer coisa. A cada dia as crianças se mostram mais ansiosas e são o tempo todo incentivadas à "adultização", enquanto os adolescentes estão mais perdidos do que nunca e sendo tratados como se fossem bebês. Para fechar, é crescente o número de adultos que se "autoinfantilizam", agindo de forma emotiva e sendo irresponsáveis com sua família, seu dinheiro, sua própria saúde.

As etapas naturais da evolução da vida estão desordenadas e as pessoas correm feito baratas tontas diante de uma sociedade que as coloca como vítimas à espera de que alguém as defenda delas mesmas.

Heróis se levantam e lutam, às vezes perdem, mas também vencem. Vítimas se prostram, reclamam e esperam por socorro, mas jamais vencem por elas mesmas. É preciso despertar dessa onda de torpor antes que seja tarde demais. E, desculpe dizer, mas o “tarde demais” existe sim, ainda que tenham lhe dito o contrário.

Autora

Patricia Lages é autora de 5 best-sellers sobre finanças pessoais e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. É palestrante internacional e comentarista do JR Dinheiro, no Jornal da Record.

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