Patricia Lages Análise: Viseiras e cabrestos “em nome da igualdade”

Análise: Viseiras e cabrestos “em nome da igualdade”

Rotular as pessoas, dividi-las em grupos e subgrupos e jogá-las umas contra as outras: a receita do caos em nome da “igualdade”

Cada ser é único, mas somos altamente sociáveis

Cada ser é único, mas somos altamente sociáveis

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Cada ser humano é um indivíduo e, como tal, possui características próprias e únicas. Em contrapartida, somos uma espécie altamente sociável e desfrutamos da companhia dos mais variados tipos de pessoas. Porém, o que mais se vê hoje em dia é a promoção de divisões e incontáveis subdivisões por meio de bandeiras hasteadas em nome de uma suposta igualdade.

Em prol do empoderamento feminino é preciso criar ambientes livres de homens. Em prol dos negros é preciso atacar os brancos. Em prol dos homossexuais é preciso demonizar os héteros. Em prol dos empregados é preciso quebrar os patrões. São divisões irracionais e fantasiosas, pois promovem a ideia de que o mundo só será um bom lugar para se viver quando todos forem iguais, ao mesmo tempo que se diz “plural” e “diverso”. Cada grupo constrói suas razões e passa a militar contra todos os demais que, igualmente, só têm olhos para suas próprias justificativas.

Para que as divisões se estabeleçam e criem raízes, basta usar o discurso da “justiça social”, fazendo com que cada um afunile a sua visão para enxergar apenas o seu lado da história. É dessa forma que os adestradores distraem as massas enquanto colocam sobre elas viseiras e cabrestos que ditarão o que irão ver e qual caminho deverão seguir. Nada novo, afinal de contas, é o velho “dividir para conquistar”. O que surpreende é saber que uma estratégia tão antiga e tão difundida ainda funciona.

Pessoas que levantam bandeiras e militam em causas nas quais acreditam, geralmente o fazem com a melhor das intenções. A maioria dos que saem às ruas ou expõem publicamente suas opiniões nas redes sociais creem que estão atuando como agentes da justiça social. O que muitos não percebem é que não se faz justiça considerando apenas um lado da história. É um discurso que diz promover a diversidade, mas que atua para que cada um pratique o mais puro egoísmo.

Não há nenhum fundo de justiça quando se supõe que um grupo sempre está certo enquanto o outro sempre está errado. Há patrões que fraudam seus funcionários, assim como há funcionários que roubam seus patrões. Portanto, não é justo e nem sequer racional, presumir que um dos lados sempre tem razão. Aliás, nem deveria haver essa divisão, afinal, não há patrão sem empregado e nem empregado sem patrão. Mas enquanto a guerra se instala, tanto um lado quanto o outro não tem tempo e nem disposição para se unir e, juntos, construírem uma sociedade mais justa para todos.

A verdade é que essas centenas de divisões e toda a militância que se instalou em boa parte do mundo são apenas uma grande cortina de fumaça promovida por uma elite que só visa seus próprios interesses. Se as pessoas deixassem de se digladiar e se unissem em prol de um bem comum, conquistariam tudo o que necessitam sem ter de depender de ninguém. Mas a independência é algo perigoso, pois tira das mãos de um pequeno grupo o controle de toda a massa.

O seu inimigo não é o vizinho branco, negro, pobre ou rico. O seu inimigo não é aquele que lhe deu um emprego ou aquele que trabalha para você. O seu inimigo não é aquele que não entende a sua opção sexual ou quem, de alguma maneira, leva uma vida diferente da sua. O seu inimigo é você mesmo, quando se convence de que não consegue conquistar o que deseja sem a ajuda de quem igualmente o considera incapaz. Você se torna seu pior oponente quando escolhe um lado em detrimento de todos os outros, achando que está promovendo a justiça. Você se torna uma marionete quando permite que lhe coloquem viseiras e cabrestos, quando poderia ter uma visão muito mais ampla e verdadeiramente inclusiva.

Se realmente a sua intenção é viver em uma sociedade mais justa, guarde esta frase: jamais haverá multiplicação enquanto todo empenho estiver voltado a promover divisões.

Autora

Patricia Lages é autora de 5 best-sellers sobre finanças pessoais e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. É palestrante internacional e comentarista do JR Dinheiro, no Jornal da Record.

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