Patricia Lages Análise: Vale tudo para lucrar alto na indústria da estética

Análise: Vale tudo para lucrar alto na indústria da estética

De harmonização a desarmonização facial, não há limites para um dos segmentos que mais crescem em todo o mundo

  • Patricia Lages | Patricia Lages

Indústria da beleza parece querer deixar todo mundo com a mesma cara

Indústria da beleza parece querer deixar todo mundo com a mesma cara

Gerd Altmann/Pixabay

Se você não vê problemas no seu corpo, rosto, pele e cabelos, para a indústria da beleza você certamente tem problemas. E muito sérios. Afinal de contas, com tantas novas imposições sobre o que é belo e o que “está na moda”, como pode ser que você esteja de acordo com todas elas? Impossível! A menos que, como já foi dito, você tenha algum problema.

Não há dúvida de que os avanços da medicina – aliados à tecnologia e a muita pesquisa por parte de profissionais, laboratórios e empresas sérias – nos trouxeram inúmeras possibilidades que vão desde a correção de imperfeições, passando pelo retardamento do envelhecimento, até a promoção de uma melhor qualidade de vida. Porém, o que temos visto atualmente é a banalização de procedimentos cirúrgicos que, além de trazerem riscos como qualquer outra cirurgia, são promovidos por simples modismos.

Sou totalmente a favor de corrigir ou melhorar aquilo que desagrada ou desagrega. Acho excelente que uma mulher que tenha seios muito grandes, que prejudiquem sua coluna ou dificultem o caimento das roupas, por exemplo, não tenha de viver assim pelo resto da vida. E ainda que seja por questões puramente estéticas, como eu mesma já fiz ao corrigir orelhas de abano, uma cirurgia torna-se algo justificável quando tem objetivos específicos e plausíveis.

Mas como defender procedimentos que visam a colocar as pessoas em uma espécie de molde pré-fabricado de onde todas saem com a mesma cara, a mesma falta de expressão e o mesmo corpo? E, diga-se de passagem, tudo o que foi feito ontem já não estará mais “na moda” amanhã, o que demandará mais e mais intervenções. É ótimo que existam cada vez mais opções de tratamentos, ainda que nem todos possam pagar, porém, mais do que dinheiro, o que tem faltado é propósito.

É muito fácil entender por que não há crise na indústria da estética, afinal, ela é autossustentável a partir do momento em que se alimenta da insatisfação das pessoas, que, por sua vez, é promovida diuturnamente pela publicidade e pela mídia. Chegamos a um ponto em que quem “ainda” não fez harmonização facial está por fora e quem não fez nem sequer um “preenchimentozinho” deve estar vivendo em outro mundo.

Desde a Revolução Industrial, temos visto que o que faz um segmento da economia maximizar seus lucros é a padronização dos processos. E essa industrialização chegou aos seres humanos por meio de um discurso totalmente contraditório que, ao mesmo tempo que diz que todos devem ser aceitos como são, grita que é preciso se adequar aos padrões, custe o que custar, e ser “como todo mundo é”.

Só mesmo na era da contradição é que se pode achar normal que haja tanto a promoção da harmonização como a da desarmonização facial, um movimento que incentiva a “retirada do belo e do natural”, destacando exageradamente uma parte específica do rosto, como uma boca imensa ou um nariz desproporcional.

O corpo humano tem sido tratado como se fosse massinha de modelar cujo formato nunca é o ideal, nunca é bom o bastante, nunca fica “perfeito”. É preciso entender que toda inteligência empregada no alcance de tamanha tecnologia não nos isenta do uso de nosso próprio raciocínio e de tomar atitudes desse porte sempre com objetivos plausíveis e propósitos positivos. Afinal de contas, se isso nos for tirado, realmente não seremos muito mais do que massinha de modelar.

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