Patricia Lages Análise: Um apelo à volta da vergonha e do constrangimento

Análise: Um apelo à volta da vergonha e do constrangimento

Vergonha e constrangimento fazem as pessoas pensarem com senso crítico antes de opinar ou agir, e isso anda fazendo falta

Receita de sucesso: uma xícara de café para uma xícara de vergonha

Receita de sucesso: uma xícara de café para uma xícara de vergonha

S. Hermann & F. Richter/Pixabay

“Você não tem vergonha, não?” Essa frase era comum quando eu, ainda criança, fazia algo que não deveria ter feito. Não era prazeroso de se ouvir, pois realmente me deixava envergonhada e constrangida, mas foi o que me fez entender que havia atitudes que poderiam causar desonra a mim mesma ou a alguém. Diante disso, sentir vergonha ou constrangimento foi algo positivo, que me educou, me mostrando que era necessário evitar determinados atos, comportamentos, palavras ou perguntas indiscretas.

Hoje em dia, em nome de uma tolerância que mais tem a ver com negligência, a vergonha e o constrangimento estão sendo demonizados. Pais não repreendem mais os filhos supostamente por “amá-los demais”, sem perceberem que, ao poupá-los desses pequenos momentos dolorosos na infância e na adolescência, deixam de prepará-los para algo que, inevitavelmente, passarão na vida adulta. Mas de uma forma muito pior e que, talvez, não tenha mais remédio.

Sêneca afirmou que: “Acaso alguém se admira de ter frio no inverno, de ter náusea no mar, de ser sacudido numa viagem? É forte a alma diante dos males para os quais foi preparada”. E é justamente pela falta de preparo para o mundo real que um número cada vez maior de pessoas tem as mais exageradas reações diante do óbvio, sem terem nem mesmo capacidade para perceber as vergonhas que passam. Não é à toa que o termo “vergonha alheia” tem sido amplamente usado.

Às vezes me pego com o rosto queimando ao ler alguns comentários nas minhas redes sociais, onde posto gratuitamente conteúdos educacionais sobre finanças pessoais e empreendedorismo, além de dar dicas de economia doméstica. Para quem quer fazer um teste prático de seus níveis de capacidade de constrangimento, seguem alguns dos comentários publicáveis (com todos os enumeráveis erros de português eliminados). Ao sentir vergonha alheia, você terá passado no teste.

Em um vídeo onde ensino uma receita culinária nutritiva e de baixo custo utilizando medidas caseiras, como colheres de sopa e xícaras de chá e de café:

“Como é que a gente vai fazer uma receita que pede ¼ de xícara? Como é que eu vou saber quanto é ¼, querida? Me poupe!”

“Você só esqueceu de colocar as medidas, meu amor. Esse negócio de xícara atrapalha porque não tem como saber que tipo é a sua. Pra ensinar, primeiro tem que saber, né?”

“Como eu vou sei se essa receita dá certo usando outros ingredientes? Você só mostrou como fica usando esses. Obrigada por perder meu tempo!”

Em um vídeo sobre como juntar 10 mil reais em um ano:

“Mulher, você tem problema? Se eu deixar de gastar esses valores aí que você fala e colocasse nessa tal aplicação é lógico que eu teria dez mil em um ano. Quero ver juntar sem ter o dinheiro... É isso que eu vim aqui ver e não achei nada!”

“Cara de pau de fazer vídeo para enganar as pessoas! Eu ganho 900 por mês, como vou juntar esse valor em um ano? Fico sem comer, moro no meio da rua? Responde, sua pilantra!”

Se o seu filho faz esse tipo de questionamento ou interage dessa forma com as pessoas, corrija-o enquanto é tempo. Faça-o sentir vergonha, constranja-o e use todas as ferramentas que puder para educá-lo. Mas se não quiser ter esse trabalho agora, prepare-se para sentir muita náusea ao navegar ao lado dele pelo mar da vida.

Autora

Patricia Lages é autora de 5 best-sellers sobre finanças pessoais e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. É palestrante internacional e comentarista do JR Dinheiro, no Jornal da Record.

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