Patricia Lages Análise: sorveteiro gasta indenização de R$ 71 mil em um mês

Análise: sorveteiro gasta indenização de R$ 71 mil em um mês

Ambulante promove churrascadas, compra celular, moto e passarinhos, mas sem dinheiro, volta a vender sorvete

Sorveteiro decidiu levar vida de rei por alguns dias

Sorveteiro decidiu levar vida de rei por alguns dias

Peggy und Marco Lachmann-Anke/Pixabay

Os pouco mais de 31 mil habitantes do município de Baixo Guandu, a cerca de 180 quilômetros de Vitória (ES), assistiram de perto a ascensão e queda de Luís Fernando de Arruda, de 32 anos, que curiosamente é ex e futuro sorveteiro. Há poucos meses, Luís Fernando recebeu uma indenização de R$ 71 mil líquidos por meio da Fundação Renova, que atua na conclusão de processos de ressarcimento da Vale aos atingidos pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG).

Casado e pai de uma bebê de pouco mais de um ano, o ambulante decidiu que a verba indenizatória não seria investida em um novo negócio, na compra da casa própria e nem mesmo para garantir o futuro da filha. Em vez disso, optou por ter o que chamou de “vida de rei” e diz não estar arrependido: “não me arrependi nem um pouquinho. Um dia todo mundo vai morrer, né? Eu queria me divertir”, afirmou.

Nas mãos de Luís Fernando, o dinheiro acabou em pouco mais de 30 dias e ele explica o que fez sem cerimônia: “Era churrascada todo dia, a noite toda, com muita bebida e som de qualidade. Enchi a casa com meus amigos e festejamos demais”. Ele também comprou uma moto, um celular e “uns passarinhos caros”, que declarou serem sua paixão. Porém, nada restou: “A moto eu já vendi, o celular também. Não tenho mais nada”, conta.

As churrascadas foram preparadas de forma improvisada, com os espetos sobre blocos de cerâmica no quintal de uma casa alugada, sem forro ou pintura. Sempre sorridente e com uma cerveja nas mãos, Luís Fernando repete o bordão que diz ter criado e que o fez famoso na cidade: “não dá nada”. E, embora não saiba explicar o que significa, afirma: “Só sei que não dá e nem deu. Tô aqui sem dinheiro, mas feliz!” Usando o mesmo perfil que exibia o que chamou de “vida de rei”, Luís Fernando anunciou não só a venda da moto e do celular, mas também de diversas caixas de som e, atualmente, até um triciclo infantil.

Sem nenhum centavo de todo dinheiro que recebeu, ele planeja voltar às ruas de Baixo Guandu como sorveteiro, mas só quando “esquentar um pouquinho”. Enquanto isso, aguarda receber cerca de R$ 5 mil de restituição de Imposto de Renda que, segundo ele, serão utilizados para recomeçar a vida.

Essa é apenas mais uma história que comprova que o dinheiro, por si só, não tira a pobreza das pessoas e nem resolve a questão da falta de educação generalizada que o Brasil enfrenta há séculos. Há inúmeros Fernandos, maridos e pais espalhados pelo país, com condições de mudar de vida, mas sem a mínima noção da responsabilidade que têm. Que trocam a oportunidade de um futuro melhor por poucos dias de uma “ostentação” que só existe na cabeça de quem se espelha no que a mídia promove ininterruptamente: música, dinheiro fácil, cerveja e diversão. É o triste retrato de uma geração de alienados que se enchem de um vazio sem fim e que, de fato, “não dá nada”.

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