Patricia Lages Análise: Seu cérebro explica por que é tão difícil mudar

Análise: Seu cérebro explica por que é tão difícil mudar

Preferimos confirmar crenças e resistimos ao que nos contradiz, ainda que haja evidência de que nosso pensamento esteja errado

Em tempos de fake news, a verdade dos fatos deve prevalecer

Em tempos de fake news, a verdade dos fatos deve prevalecer

Noah Berger/UCSF

Outubro de 2020 ficará gravado na história por causa do lançamento de uma espécie de atlas do cérebro humano que identifica funções neurológicas importantes do órgão que mais tem intrigado a ciência e a medicina ao longo dos séculos.

Foram cinco anos de estudos desenvolvidos por um consórcio de pesquisadores sob a liderança de Helen Bateup, neurocientista celular da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos. Para Bateup, o estudo visa entender plenamente o funcionamento do cérebro para compreender melhor a complexa rede de neurônios que comandam o organismo humano, além de avaliar como as disfunções cerebrais podem causar tantos prejuízos.

O estudo também pretende descobrir formas de melhorar o uso das inúmeras funções do cérebro e revela que, embora a informação de que utilizamos uma porção pequena do nosso intelecto não corresponda à realidade, pode haver meios de tirar maior proveito da nossa capacidade cognitiva. De acordo com a neurocientista, é preciso primeiramente estudar as funções de cada parte do cérebro para entender como trabalham em conjunto. Ou seja, os avanços recentes são importantíssimos, mas ainda pode haver muito mais a ser desvendado.

Apesar da complexidade de um órgão com cerca de 160 bilhões de células, algumas descobertas esclarecem fatos curiosos, como a nossa resistência às mudanças, tanto de atitude como de pensamento. Erica Ariano, CEO da It Business Lab e professora do Centro de Inovação e Criatividade da ESPM, destaca que a mente humana busca o tempo todo evidências que confirmem suas convicções, ao mesmo tempo que evita tudo o que as contradiz.

“Quando avaliamos nossa confiança em uma crença, é mais fácil gerar evidências de apoio a ela. Esse processo tende a ocorrer automaticamente, sem percepção consciente. Sua mente quer que tudo fique como está para poupar energia e consolidar crenças. Por isso é tão difícil mudar”, explica Ariano, que também é mentora da Inovativa Brasil.

Ela destaca que, em tempos atuais, essa forma de avaliação pode complicar a vida, já que as pessoas tendem a se unir a quem pensa igual e a “cancelar” aqueles que pensam diferente. “Podemos cair no chamado viés de confirmação, que é a tendência de lembrar, interpretar ou pesquisar informações de maneira a confirmar crenças ou hipóteses iniciais. O ideal é tentar não agir por esse impulso, pois ao identificar esse comportamento haverá mais chance de evitar cair nesse viés. É preciso estar atento às reações para aprender com elas”, afirma.

Em tempos de fake news e da busca incessante por “informações sob medida”, é preciso lembrar que o mais importante é a verdade dos fatos e não a satisfação pessoal à custa de crenças em ideologias fantasiosas. A complexidade da inteligência humana não pode se render a “achismos” ou a discursos barulhentos que negam a ciência ao mesmo tempo que dizem cultuá-la.

É necessário, mais do que nunca, usar a cabeça e não se deixar levar por pensamentos desconectados da realidade que só atendem às agendas nebulosas daqueles que tentam neutralizar o raciocínio e impor um pensamento único. Somos muito mais do que isso.

Autora

Patricia Lages é autora de cinco best-sellers sobre finanças pessoais e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. É palestrante internacional e comentarista do JR Dinheiro, no Jornal da Record.

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