Patricia Lages Análise: revisitando o enfrentamento à covid-19

Análise: revisitando o enfrentamento à covid-19

Uma das iniciativas mais criticadas foi o investimento pesado no serviço funerário da cidade de SP. Passados exatos onze meses, Bruno Covas tinha razão?

Quarentena de Covas contribuiu para superlotar o transporte público, maior disseminador de infecção

Quarentena de Covas contribuiu para superlotar o transporte público, maior disseminador de infecção

Leonardo Fernandez Viloria/Reuters

No início da pandemia, quando não sabíamos ainda que a questão se arrastaria por mais de um ano sem previsão de terminar, muitas opiniões divergentes começaram a surgir. Na polarização que se instalou ainda mais, havia os que diziam que andaríamos pelas ruas desviando dos corpos das vítimas da covid e outros que afirmavam que sentiríamos vergonha pela forma como a situação estava sendo conduzida.

Voltando um pouco no tempo, mais precisamente em 23 de abril de 2020, nos deparamos com a coletiva de imprensa dada pelo prefeito de São Paulo, Bruno Covas – sem máscara – onde ele pede que seja apresentado um vídeo com “a triste história de Guayaquil”, maior cidade do Equador. Segundo suas palavras, o objetivo da apresentação era servir “como exemplo para que a gente possa aprender com o risco que todos nós corremos” e que o vídeo era, inclusive, “o ponto central da nova campanha que a prefeitura promove a partir de hoje.”

O vídeo começa com uma música dramática e uma narração que aponta a população de Guayaquil como culpada pelo colapso no sistema de saúde local, pois as pessoas não teriam obedecido a quarentena e, em consequência disso, teriam se infectado “ao mesmo tempo”. Seguem-se imagens de gente caindo morta pelas ruas, de pacientes em macas e da retirada de cadáveres que teriam morrido em casa. A narração afirma que a cidade “passou a não dar conta de tantos enterros”, enquanto um recorte mostra o que parece ser uma manchete – cuja fonte não é mostrada – afirmando: “Equador tira 36 corpos por dia em casas de Guayaquil.”

Na sequência, a narração explica que, sem quarentena, muitos se infectam ao mesmo tempo causando o colapso do sistema de saúde e que, com quarentena, “o número de doentes se distribui no tempo, há mais chances de os hospitais receberem e tratarem os casos mais graves.” Por fim, enquanto aparece a imagem de uma pessoa deitada na rua, a narração faz um encerramento em tom grave dizendo: “A triste história de Guayaquil não pode se repetir.”

Depois do vídeo de abertura para o lançamento de uma nova campanha da prefeitura que mais parece um filme de terror, Bruno Covas retoma a palavra reiterando os esforços que a cidade, juntamente com o governo do estado, vem fazendo para que as pessoas fiquem em casa. O prefeito pontua a abertura de novos leitos e relembra que foram “construídos muito rapidamente” os hospitais municipais de campanha do Anhembi e do Pacaembu. O que não se sabia à época é que seriam igualmente desmontados muito rapidamente. Enfim... Covas segue relatando que, mesmo com as providências na área da saúde, a cidade tem 70% de taxa de ocupação e passa a falar de outra preocupação: a de atender os mortos.

“A nossa preocupação é estarmos preparados para organizar e minimizar a dor das famílias para que elas possam dar um sepultamento digno aos entes que vão ser perdidos.” Dito isso, o prefeito começa a discorrer sobre o plano de contingência para oferecer o que classificou como “um sistema funerário adequado” para a cidade de São Paulo:

“Já liberamos um crédito complementar de 40 milhões de reais para o serviço funerário. Já estamos ampliando a capacidade do serviço funerário e dos cemitérios municipais de sepultarem 240 corpos, pulando para 400, diariamente. A prefeitura já contratou 220 coveiros para poder dar conta desta nova demanda. Aumentou em 32 carros, eram 36 e agora temos mais 32 carros trabalhando na frota do serviço funerário. Ampliamos o atendimento das agências funerárias, já estamos instalando nove agências nos nossos nove hospitais municipais referenciados para a covid... Já compramos 38 mil novas urnas funerárias, adquirimos três mil EPIs para os funcionários dos cemitérios municipais. Já adquirimos 15 mil sacos reforçados para o deslocamento de corpos na cidade de São Paulo.”

Depois do anúncio do “crédito complementar” – dinheiro além das despesas normais – em prol do alto número de “entes que vão ser perdidos”, Covas discorre sobre as restrições em relação aos velórios e continua descrevendo sua lista de providências fúnebres:

“Estamos abrindo 13 mil novas valas, inclusive com o apoio e a utilização de quatro mini retroescavadeiras e, se necessário, vamos ter capacidade para poder trabalhar 24 horas por dia aqui na cidade de São Paulo.” Foi um show de eficiência, algo jamais visto em relação ao atendimento dos mortos. Mas, passados exatos 11 meses da coletiva em prol da morte, os fatos são os seguintes:

• Não há nenhum hospital de campanha na maior cidade do país;
• Continuamos não tendo vagas para o tratamento adequado da covid-19;
• A quarentena de Covas contribuiu para superlotar ainda mais o transporte público – maior disseminador de infecção, perdendo apenas para o ambiente hospitalar;
• O número de óbitos por covid-19 na cidade de São Paulo, até ontem (22/03), é de 20.362, segundo o Boletim Diário da Covid-19 publicado pela prefeitura;
• Faltam leitos, mas caixões, sacos reforçados e valas estão sobrando.

Os 40 milhões de reais empregados para atender os 38 mil mortos previstos para as semanas seguintes (inclusive com possibilidade de atendimento 24 horas) se mostraram desnecessários, enquanto faltou dinheiro para atender os vivos e, quem sabe, reduzir o número de óbitos.  Enquanto isso, no Equador, país que abriga a cidade de Guayaquil – o “ponto central da nova campanha da prefeitura” e local onde supostamente havia cadáveres espalhados pelas ruas – o número total de mortes por covid neste momento é de 16.478. Sim, este é o total de mortes no país inteiro e não apenas em Guayaquil.

Diante disso, resta saber a sua opinião: Bruno Covas investiu bem os 40 milhões de reais do dinheiro do contribuinte para atender mortos que não morreram ou a iniciativa é digna de vergonha? Aproveite, pois, por enquanto, a opinião é livre.

Autora

Patricia Lages é autora de 5 best-sellers sobre finanças pessoais e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. É palestrante internacional e comentarista do JR Dinheiro, no Jornal da Record.

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