Patricia Lages Análise: Quem só dá peixe não forma pescadores

Análise: Quem só dá peixe não forma pescadores

A crise econômica fez necessário o auxílio emergencial, mas sem educação financeira 36% dos beneficiários ficarão sem nenhuma renda assim que ele acabar

Fim do auxílio vai levar renda de 25 milhões a zero

Fim do auxílio vai levar renda de 25 milhões a zero

Pixabay

De acordo com o governo federal, quase 70 milhões de pessoas receberam o auxílio emergencial e, segundo pesquisa realizada pelo Datafolha, 36% dos beneficiários não têm nenhuma outra fonte de renda. Ou seja, cerca de 25 milhões de pessoas verão sua renda cair a zero assim que o auxílio for suspenso. Diante da confirmação da redução do valor de R$ 600 para R$ 300, as medidas de readaptação do orçamento das famílias foram as seguintes:

• 75% reduziram a compra de alimentos
• 65% reduziram a compra de medicamentos
• 57% reduziram o consumo de água e luz
• 55% deixaram de pagar alguma conta de casa
• 52% reduziram os gastos com transportes
• 51% deixaram de pagar escola ou faculdade
• 27% buscaram outra fonte de renda

Na maioria das famílias, o benefício custeou principalmente alimentos e remédios, o que parece perfeitamente justificável segundo a cultura brasileira. Temos um histórico de dependência, principalmente em relação ao governo, de quem se espera a solução para todos os problemas. E, quando não, a relação de dependência se dá com as empresas, que passam a ser as responsáveis por arcar com todas as necessidades de seus funcionários, concedendo-lhes “benefícios” que, na verdade, são tirados do bolso do próprio trabalhador. Mas isso é assunto para outro artigo. Sei que as relações patrão-empregado nos termos da CLT parecem ótimas, mas, na prática, não são.

Essa relação de alta dependência desencadeia uma dinâmica nada produtiva: as pessoas confiam de tal forma em ter uma única fonte de renda que gastam tudo o que recebem no período de trinta dias (ou menos). Para isso existem diversas justificativas e a mais comum é a de que o salário já não dá para nada, então não resta outra alternativa senão gastar 100% dele (ou, em vários casos, até mais do que isso). Estando justificadas, as pessoas não se aplicam a buscar renda extra e nem a poupar parte do salário para eventuais emergências. Com isso, quando a única fonte seca, elas se veem endividadas em questão de semanas ou até mesmo dias.

Infelizmente, a nossa cultura não valoriza o aprender a pescar, em vez disso, prefere buscar a garantia do direito de alguém lhe dar o peixe, mesmo que isso signifique colocar o controle de toda sua subsistência nas mãos de terceiros. É curioso ver como os brasileiros odeiam os políticos, mas, ao mesmo tempo, não se incomodam em depender deles e nem de receber o mínimo do Estado. Prova disso é o alto percentual de pessoas que querem a instituição da uma renda mínima universal bancada pelo governo.

Até quando seremos o povo do mínimo? Até quando nos contentaremos com os pequenos peixes que são servidos e deixaremos de olhar para a imensidão do mar, onde podemos pescar o que quisermos, quando quisermos e da forma que quisermos? Nós somos um povo criativo que vive em um país onde quem vende bala no semáforo – duas ou três horas por dia – consegue uma renda maior do que quem bate cartão por oito horas diárias, mas se contenta com um salário mínimo mais vale-transporte.

É preciso reconhecer nossos talentos e usá-los, sem moderação, para transformá-los em emprego e renda, pois é assim que se gera riqueza. É hora de deixar de terceirizar as responsabilidades e começar a acreditar em si mesmo. Afinal de contas, não estamos na era do empoderamento?

Autora

Patricia Lages é autora de 5 best-sellers sobre finanças pessoais e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. É palestrante internacional e comentarista do JR Dinheiro, no Jornal da Record.

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