Análise: Quem são os beneficiados com as polarizações?

Com dimensões continentais, o Brasil sucumbe diante de uma polarização artificial que, para beneficiar alguns, prejudica a todos

Enquanto o país se divide, perdemos força

Enquanto o país se divide, perdemos força

Pixabay

No século 16, Maquiavel cita em A Arte da Guerra que é preciso dividir as forças do inimigo para enfraquecê-lo e, assim, subjugá-lo. De forma muito semelhante, Traiano Boccalini, em La Bilancia Politica (O Equilíbrio Político), descreve o termo como uma das bases da política. E, séculos antes, um dos ensinamentos de Jesus citados na Bíblia diz que: “Todo reino dividido contra si mesmo é devastado; e toda a cidade ou casa dividida contra si mesma não subsistirá” (Mateus 12:25).

Portanto, quer seja por estratégia de guerra, marketing político ou crença, o “dividir para conquistar” é um fato tão antigo quanto eficiente. Isso porque quando as pessoas se unem organizadamente, qualquer tirania perde força e, para recuperar o poder, é preciso criar divisões artificiais usando todos os meios possíveis para propagá-las até causarem rupturas reais.

Nessa busca desenfreada pelo poder vale tudo: guerra de classes, conflitos raciais, divisões ideológicas e todo tipo de distração que desvie a população dos reais interesses de quem quer tomar o poder. A estratégia é bem simples: criar problemas que pareçam insolúveis para, em seguida, oferecer soluções complexas. Tudo isso bem embaixo dos nossos narizes.

Quando, por exemplo, patrões e empregados colaboram entre si para o crescimento de todos, não há necessidade de mediadores e todos ganham. Afinal, um empregador que não cuida de seus funcionários dá um tiro no próprio pé e empregados que não fazem a sua parte igualmente se prejudicam. Mas basta colocar empregados contra patrões, convencendo-os de que são vítimas indefesas de exploradores impiedosos para que estes se vejam em desvantagem e busquem alguém que os possa defender.

O mesmo acontece com os movimentos feministas que querem incutir na cabeça das mulheres de que é preciso ir à luta, tomar o seu lugar, mostrar o seu valor. Com um discurso que parece fazer sentido, o movimento diz buscar igualdade, porém, esta não é a verdadeira proposta. Por vários anos fiz parte de grupos de empreendedorismo feminino para levar educação financeira, mas meu conteúdo nunca foi suficiente, pois não bastava ensinar mulheres, era preciso desmerecer os homens.

Faltava mostrar que todos os homens são vilões e que “tomaram o nosso lugar” na economia, nos negócios, na tecnologia, na bolsa de valores. E a minha pergunta sempre foi: tomaram qual lugar? Que eu saiba não havia nenhum lugar destinado exclusivamente a mim que um homem correu na frente e o tomou. Todos os lugares que eu quis estar até o momento, lutei contra mim mesma e alcancei. Estudei quando tinha vontade de ver televisão, economizei quando a vontade era gastar, trabalhei além do horário quando queria ir mais cedo para casa. Mas não é isso que o movimento feminista busca. O que querem é o conflito, a “problematização” de tudo e qualquer coisa para se oferecerem como a grande solução. É como se dissessem às mulheres: “Meninas, vocês não precisam de ninguém, a não ser de nós que estamos aqui para defendê-las do patriarcado machista”.

O mesmo acontece quando se divide a população sob qualquer outro pretexto. Quando as guerras se armam, ninguém pensa com clareza e este é o cenário perfeito para que pessoas mal-intencionadas surjam como paladinos das vítimas, salvadores dos desempoderados, voz dos que não têm capacidade de falar por si mesmos. Pois saiba que você, seja lá quem for, pode falar por si mesmo, pode alcançar o que quiser por seus próprios méritos, ainda que digam que a sua cor, classe ou grau de instrução não permite. Você só não pode ter ou ser aquilo que acredita que não pode. Mas não é todo mundo que está disposto a assumir as rédeas da própria vida, infelizmente.

É preciso entender que enquanto o país se divide, perdemos força, perdemos identidade e perdemos até as cores da nossa bandeira que foram conquistadas com muita luta e sacrifício. O ensinamento de que um reino dividido não subsiste é milenar, mas há muita gente, em pleno 2020, que ainda não entendeu.

Autora

Patricia Lages é autora de 5 best-sellers sobre finanças pessoais e empreendedorismo e do blog www.bolsablindada.com.br. É palestrante internacional e comentarista do JR Dinheiro, no Jornal da Record.