Análise: Quem poderá me defender?

Em um país ainda cheio de paternalismo, permanece cultura de ser relapso e imprudente e, depois, esperar que alguém apareça para consertar estragos

Mesmo consciente, brasileiro ainda cai em golpes

Mesmo consciente, brasileiro ainda cai em golpes

Pixabay

O Brasil padece da cultura do “deixa como está para ver como é que fica”. Prudência, planejamento e prevenção não são nada populares por aqui e os poucos que as praticam são rotulados de pessimistas, medrosos e cismados.

Mesmo recebendo relatos de golpes financeiros praticamente todos os dias, ainda me surpreende o fato de as pessoas serem tão facilmente enganadas em um país onde passar a perna nos outros se tornou algo corriqueiro. E mesmo diante de uma justiça obsoleta e lenta, ao cair em mais um golpe, muitos ainda esperam que alguém as defenda e traga de volta o que entregaram de bandeja ao estelionatário da vez.

Esta semana, o “golpe em destaque” foi o do falso financiamento de veículo, acompanhe trechos do relato da vítima:

“Nunca pesquisei sobre financiamento de carro... vi um anúncio [na internet] e gostei da oferta, muito dada. Tinha um dinheiro guardado para outra coisa. Ontem, fui até a agência, assinei um contrato e dei uma entrada. Eles falaram que agora tenho que aguardar o banco ligar. Orando por isso porque passei a pesquisar sobre a empresa e o CNPJ existe há um mês. O contrato diz que o valor que dei não é a entrada [como informaram], mas sim, honorários e que abro mão do reembolso. Estou com medo porque era meu único dinheiro.”

Trata-se de uma pessoa que agiu por impulso, movida pelo anúncio de uma oferta “muito dada” sobre algo que tinha plena consciência de que não sabia nada a respeito. Uma pessoa que não é analfabeta, mas que não viu o menor problema em assinar um contrato sem ler. Alguém que tinha “um dinheiro guardado para outra coisa”, mas, em um ímpeto, jogou para o alto seu planejamento e entregou tudo o que possuía nas mãos de oportunistas.

Depois do calor das emoções passar, a racionalidade voltou e a vítima, desconfiando do ocorrido, consultou o CNPJ da empresa e foi pesquisar sobre financiamento de veículo na internet. Foi dessa forma que ela chegou a mim e publicou o comentário.

O Brasil não é o país dos golpistas por acaso, pois, para alcançar esse status, primeiro teve de se consolidar como o país das emoções. Por aqui se troca estudo por balada em um simples piscar de olhos, basta verificar o que mais se vê ao redor das faculdades: bares. Existe até ranking dos melhores “bares de facul”. Além disso, um jeans de R$ 200 é considerado barato e necessário, enquanto um livro de R$ 50 é absurdamente caro e dispensável.

O brasileiro ainda acha que pensar dá muito trabalho e que posar de vítima quando a corda arrebenta lhe dá o direito de que alguém surja com uma resposta simples para consertar todos os estragos. Mas a verdade é que estudar sobre finanças pessoais não é difícil e fazer planejamento não é chato. Difícil é viver dependendo dos outros e chato é amargar prejuízo atrás de prejuízo.

Autora

Patricia Lages é autora de 5 best-sellers sobre finanças pessoais e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. É palestrante internacional e comentarista do JR Dinheiro, no Jornal da Record.

Últimas

    http://meuestilo.r7.com/patricia-lages