Análise: quem lacra não lucra, nem nos States

Burger King se utiliza novamente da causa LGBTQ+, alfineta concorrente nas redes e recebe enxurrada de críticas

Unidade da lanchonete Chick-fil-A

Unidade da lanchonete Chick-fil-A

Walker Kinsler/Wikicommons

A Chick-fil-A, gigante americana de fast-food no segmento de sanduíches de frango, foi alfinetada em uma campanha do Burger King na semana passada, nos Estados Unidos, mas ao contrário do que se esperava, deve estar muito grata por isso. É que, mais uma vez, o BK usa a comunidade LGBTQ+ em uma estratégia de marketing de baixo custo para ampliar seus lucros. Porém, o tiro parece ter saído pela culatra.

Fundada por uma família cristã, a Chick-fil-A implantou a política de não abrir aos domingos, dia em que pede aos funcionários que se dediquem à família, o que serviu para o concorrente lacrador dar uma alfinetada em seu Twitter. Seguem as postagens do BK em tradução livre:

“O #ChKing diz Direitos LGBTQ+!
Durante o Mês do Orgulho (mesmo aos domingos) o seu desejo por sanduíche de frango será atendido! Estamos fazendo uma doação para o @HRC para cada ChKin vendido” e completa na sequência com outro post: “De 03/06 a 30/06 a cada ChKing vendido, o BK vai contribuir com 40 centavos para o Human Rights Campaign (doação máxima de 250 mil dólares)”.

As postagens causaram as mais diversas reações negativas, inclusive de cristãos que se sentiram ofendidos com a menção sobre os domingos:

“Embora o Burger King respeite os direitos LGBTQ+, estão simultaneamente depreciando o dia sagrado de 2 bilhões de cristãos em todo o mundo. Aposto que não fariam isso com outros grupos religiosos.”
“Em primeiro lugar, o motivo pelo qual o Chick-fil-A não abre aos domingos é por causa do sábado e eles querem que os funcionários fiquem com a família. Segundo, vocês não teriam feito esse tweet se o Chick-fil-A fosse um estabelecimento muçulmano. Terceiro, os sanduíches de frango do BK não chegam nem perto dos do Chick-fil-A.”

Outros demonstraram seu descontentamento em relação ao posicionamento político, como estes dois tweets:

“Eu [apoio] a liberdade de ser quem você é sexualmente, gênero ou cor, mas como vocês escolheram entrar na política, acabaram de perder um cliente.”
“Usando a política para fazer marketing? Vou tentar comer no Chick-fil-A todos os dias pelo resto do mês. O sanduíche é superior de qualquer forma e eles não criticam religião.”

A qualidade – ou a falta dela – em relação ao que o BK serve também não foi esquecida.

“Não consigo me lembrar da última vez que comi sua “comida” salgada e gordurosa, mas isso [a campanha] garante que nunca comerei novamente”, disse um seguidor, enquanto outro postou: “Primeiro, a sua “comida” é um ataque cardíaco numa bandeja. Segundo, ninguém vai ao Chick-fil-A para aconselhamento moral. Para isso existe a Bíblia e as igrejas. Terceiro, por que atacar uma rede de fast food que vende mais em um horário de rush do que 10 das suas lojas em um dia inteiro?

Por fim, a hipocrisia do BK em relação aos direitos humanos fica escancarada por seguidores que fizeram questão de relatar a forma nada humana como a rede trata seus próprios funcionários. Foram mencionados problemas com horário, salários indignos que mal dá para sobreviver e até postagens falando sobre polêmicas anteriores, como na ocasião em que o BK pediu aos clientes para terem paciência com “os poucos funcionários que foram trabalhar”, pois “ninguém quer mais trabalhar nos dias de hoje” e a postagem que dizia que “lugar de mulher é na cozinha”.

Fica claro que a preocupação do BK não está ligada à melhora de seu serviço, da qualidade do que serve e nem mesmo em proporcionar condições de trabalho e salário compatível com os lucros bilionários que vem acumulando ao longo dos anos. Qualquer campanha de marketing bem-feita custaria mais do que os 250 mil dólares que a rede oferece para se utilizar da causa LGBTQ+. Porém, nem sempre quem lacra, lucra e o BK vai ter de contornar mais uma ação que expõe seus verdadeiros interesses.

Autora

Patricia Lages é autora de 5 best-sellers sobre finanças pessoais e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. É palestrante internacional e comentarista do JR Dinheiro, no Jornal da Record.

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