Análise: Quem é essa criança na minha casa?

Após um ano de fechamento das escolas, pais não reconhecem os filhos e tentam reorganizar a rotina para efetivamente serem pais

Valores mudaram em relação a ter filhos

Valores mudaram em relação a ter filhos

Pixabay

“Já faz um ano que estou com ‘essa criança’ dentro de casa. Por mais que seja meu filho, não há quem aguente!”, desabafa a mãe ao saber que a escola do filho, depois de duas semanas de volta às aulas, seria fechada novamente. “Eu não tenho ‘psicológico’ para conviver 24 horas com alguém dependendo de mim pra tudo!”, confessa outra ao receber a notícia de que a empresa vai desativar o escritório e todos trabalharão de casa indefinidamente.

São frases que suscitam julgamentos dos mais diversos, mas que exprimem, com uma realidade brutal, a situação que muitos pais – principalmente mães – estão experimentando nestes tempos de pandemia. Como no relato a seguir:

“Sou separada desde que meu filho tinha três anos de idade, hoje ele está com 13. Desde então, coloquei na escola, em período integral, para que eu pudesse trabalhar. E assim se passaram nove anos, ficando juntos apenas três horas por dia. Neste período de pandemia percebi o quanto desconhecia meu filho. A criança que vejo em casa é insegura, frágil, despreparada, cheia de complexos e emocionalmente imatura. A sensação de culpa é tremenda.”

Quando lembro da minha infância, me deparo com uma época em que havia muita, mas muita escassez e uma mãe que teve de cuidar de duas meninas praticamente sozinha. Meus pais não eram separados, mas responsabilidade nunca foi o forte do meu pai. Minha mãe sempre teve de trabalhar muito, mas só optava por serviços que pudesse fazer em casa, pois jamais cogitou a possibilidade de nos deixar com quem quer que fosse.

A cada exemplo real dado pela pobreza, aprendemos finanças pessoais. Era preciso fazer as melhores escolhas, pois um erro podia significar ir dormir com fome. Aprendemos a dividir o pouco que tínhamos e a poupar nas poucas vezes que sobrava algo. E fomos ensinadas a não aceitar a miséria – embora ela morasse dentro de casa – e que tínhamos de ser fortes para vencê-la ou aquela situação se estabeleceria para sempre.

Não foi uma família das mais funcionais, mas a figura da mãe presente, que sabia até o que estávamos pensando, nos dava a segurança que dinheiro nenhum poderia dar. Eu podia ir para a escola de uniforme velho, mas estava sempre limpo, passado e muito bem vistoriado pela minha mãe para que nós não “fizéssemos feio”. E quando voltávamos, lá estava ela com o chá da tarde. Quase sempre só chá mesmo, mas às vezes havia pão com margarina.

Era um conforto enorme sentar à mesa e ver minha mãe esquentando a água com a chaleira tampada para economizar o gás – fica a dica – e passando uma camada fina de margarina no pão para, então, nos mandar comer com a boca fechada e tomar o chá sem fazer barulho.

Trabalhando em casa ela ganhava pouco, mas nos dava muito. Ela nos conhecia, sabia quando estávamos chateadas, bravas, quando havíamos brigado uma com a outra e, principalmente, quando estávamos tramando ou escondendo alguma coisa. Nós tivemos alguém que nos deu a segurança de sabermos que não estávamos sozinhas, que nos ensinou a “sentar direito”, a não falar de boca cheia, que precisávamos “ter modos” e a respeitar os outros. Para tudo o que fazíamos corpo mole ela dizia “vocês podem fazer sim, se virem!”, e quando dizíamos que não sabíamos, vinha um sonoro: “não sabe, aprende.”

Quem está fazendo esse papel nos dias de hoje? Ou melhor: quem está disposto a fazer esse papel nos dias de hoje? O que está em alta são outros “valores” quando se fala em ter filhos, como o book fotográfico da gravidez, o chá revelação, os onze “mesversários” antes de completar um ano de idade, a decoração do quarto, os brinquedos caros. E os resultados dessa troca de valores estão aí para quem quiser ver, como a triste constatação de que, pela primeira vez na história, filhos têm QI inferior ao dos pais.

Como será o futuro quando a “geração digital” – ou “geração floco de neve” – assumir os postos de trabalho, a política, o atendimento nos hospitais? Com base em que tomarão decisões e de que forma lidarão com elas ao não terem o mínimo de inteligência emocional? Que lembranças afetivas terão? O que farão quando perceberem que a vida não ensina com a mesma paciência dos pais? Que a pandemia possa trazer, pelo menos, algo de bom, como o convívio entre pais e filhos para que, amanhã, não tenhamos um futuro tão sombrio quanto parece que teremos.

Autora

Patricia Lages é autora de 5 best-sellers sobre finanças pessoais e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. É palestrante internacional e comentarista do JR Dinheiro, no Jornal da Record.

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