Análise: Quem dá 'piti' pode dar 'PT'

Destempero de João Doria cresce e vai desde ofensas pessoais até “pedir a cabeça” de jornalista em programa ao vivo

João Doria mudou a postura em relação a quem o contraria

João Doria mudou a postura em relação a quem o contraria

Governo do Estado de São Paulo - 02.02.2021

Algumas das qualidades do governador de São Paulo. João Doria, com as quais a maioria das pessoas que o conhece concorda, eram sua temperança, polidez – de fala e porte – e cordialidade. Porém, nos últimos tempos, Doria mudou totalmente sua postura diante de quem o contraria. Diante de vozes de oposição, o tom do gestor tem subido e os ataques pessoais têm se multiplicado, embora com pouca criatividade, afinal, ele repete as mesmas ofensas ainda que os alvos sejam diferentes.

Como em qualquer ditadura, a ordem é calar as vozes contrárias, forçar consensos e implementar políticas sem consulta à sociedade, pois elas jamais seriam aceitas caso houvesse tal consulta. O bem-estar das pessoas é o que menos importa, mas para sair bem na foto (mesmo) é preciso fazer isso com o cuidado de afirmar que não faz nada disso. E quem se atrever a questionar será acusado de “negacionista”, que não ama vidas, que gosta de cheiro de sangue e, pasmem, está rolando até “terraplanista”. Mas de todos os insultos o preferido parece mesmo ser vassalo.

Como vassalo é aquele que é súdito de um soberano, Doria estaria acusando as pessoas de serem vassalos de quem? De seu maior desafeto, o presidente Jair Bolsonaro. Para cumprir bem esse papel, acredito que um vassalo teria que dizer coisas como: “Bolsonaro é um homem de bem, Bolsonaro tem boas intenções e conta com meu apoio”. E é claro que teria que haver atitudes demonstrando esse apoio, como ir de São Paulo ao Rio de Janeiro para declarar pessoalmente seu apoio (ainda que seu soberano não queira recebê-lo), usar camiseta em público unindo seu próprio nome ao de seu líder (com o seu por último, claro) e até criar hashtag. Sim, você sabe quem fez tudo isso, o #bolsodoria.

Porém, uma vez que conseguiu o que queria, eis que o gestor tirou a máscara (em alguns casos, literalmente, como em Miami) e mostrou quem realmente é e como age com quem se opõe às suas ordenanças. Um de seus alvos recentes foi a prefeita de Bauru, Suéllen Rosim (Patriota), que foi chamada de “negacionista” por ter feito alterações no Plano São Paulo, afrouxando algumas determinações de fechamento impostas pelo decreto. Rosim afirma que tomou tal atitude amparada pelo comitê municipal de enfrentamento à covid-19, composto por médicos, infectologistas e profissionais de saúde.

Mas Doria foi além e acusou a prefeita de fazer “vassalagem” para Bolsonaro, pois, segundo ele, ao visitar o presidente no Palácio do Planalto, ela não estaria “protegendo a população de Bauru nem defendendo a vida e a saúde”. Rosim alega ter ido a Brasília em busca de verbas para seu município que, entre outras coisas, precisa que o Hospital das Clínicas seja aberto em definitivo, pois, no momento, atua apenas como hospital de campanha, sem o apoio necessário por parte do governo estadual. “Se precisar ir à lua atrás de verba, eu vou”, declarou a prefeita em suas redes sociais.

Depois de todo esse barulho, Suéllen não parece ter feito algo de tão errado assim, afinal, o gestor-salvador-de-vidas acaba de mudar de ideia, retirando as restrições do comércio, que voltará a funcionar no próximo fim de semana em todo o estado.

E o que dizer da participação do gestor, ao vivo, na rádio Jovem Pan, depois de um pedido de direito de resposta pelas críticas que recebeu do comentarista Rodrigo Constantino? Críticas, aliás, feitas justamente em razão do ocorrido com a prefeita de Bauru. Como qualquer pessoa que tem o mínimo de conhecimento do que se trata um direito de resposta, sua função é conceder espaço para que críticas, informações e dados sejam rebatidos sob o ponto de vista do outro lado. Isso, porém, deve ser feito com apresentação de argumentos, novas informações e dados que desconstruam a notícia ou crítica anterior.

Mas para João Doria o direito de resposta teve outras funções: ofender o comentarista pessoalmente e pedir sua cabeça à direção da emissora. Mesmo tendo um globo terrestre ao fundo, em seu cenário, Constantino foi chamado de “terraplanista”, além dos tradicionais insultos: “negacionista” e “vassalo de Bolsonaro”. Em um rompante de destemperança, o governador acusou o jornalista de ser “defensor de estupro”, sobre o que, segundo o acusado, Doria terá de responder na justiça.

Para além de lamentável, o ocorrido só reitera as demonstrações de atitudes cada vez mais autoritárias de um político que usa uma crise de saúde dessa envergadura para promover a si mesmo, tirando do caminho qualquer um que se lhe oponha. Se João Doria só tem olhos para 2022 e quer continuar posando de “político de centro”, precisa deixar de ser tão simpático (para não utilizarmos o insulto preferido do gestor) ao Partido Comunista Chinês. E abandonar a crença de que ninguém se lembrará de seus feitos durante toda a pandemia, pois nós também estamos com os olhos voltados para 2022. Por fim, quem dá “piti” pode acabar dando PT, fica a dica.

Autora

Patricia Lages é autora de 5 best-sellers sobre finanças pessoais e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. É palestrante internacional e comentarista do JR Dinheiro, no Jornal da Record.

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