Patricia Lages Análise: Quando quem se julga inocente se torna culpado

Análise: Quando quem se julga inocente se torna culpado

Cultura da vitimização culpa terceiros por todos os problemas, enquanto exime as pessoas de suas próprias responsabilidades

Não se assina nada sem ler

Não se assina nada sem ler

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Uma coisa que venho dizendo há anos é que não existe enganador sem que haja um enganado. É aquela velha história: todas as manhãs um espertalhão se levanta e sai em busca de um incauto e, assim que ambos se encontram, rapidamente fazem negócio.

Não é segredo para ninguém que, no Brasil, é possível encontrar uma arapuca em cada esquina. Apesar disso, em vez de desenvolvermos uma cultura previdente e cautelosa para nos tornarmos mais espertos que os espertalhões, o que se vê é a proliferação da vitimização. Com isso, as pessoas não assumem suas responsabilidades e, em vez de aprenderem a se livrar dos problemas, acabam se tornando vítimas de outros ainda maiores. Diante disso, o que vemos é uma sociedade que se diz empoderada, mas que age como vítima indefesa o tempo todo.

Trabalhando boa parte do tempo nas redes sociais, posso dizer que as ofensas têm crescido de uns tempos para cá, mas nem por isso me considero vítima. Afinal de contas, quem ofende alguém que está levando educação financeira gratuitamente para uma população altamente necessitada desse tipo de informação é que é vítima de sua própria ignorância.

Quando um seguidor me escreve dizendo que foi vítima de um gerente de banco, na maioria das vezes, espera palavras de consolo e a indicação de um caminho para que “alguém” resolva aquele problema do qual não tem nenhuma culpa. Mas meu papel não é esse. O que faço é mostrar que, embora o gerente do banco tenha passado informações falsas ou ocultado detalhes importantes da operação – o que é muito mais comum do que se imagina, aquele que se julga vítima é, na verdade, igualmente culpado.

Isso porque o contratado – no caso, o banco – não tem como formalizar um acordo sem o consentimento do contratante. E, na maioria das vezes, o contratado se beneficia da negligência do contratante, pois sabe que ele não vai se preocupar sequer em pedir uma via do contrato. E, mesmo quando esta lhe é entregue por força de lei, vai parar no fundo de uma gaveta sem que seja lida uma única cláusula. E negligência é um erro cometido pelo negligente, ponto final.

Perante a lei, a assinatura é o indicativo da anuência e não importa a mínima se quem assinou não leu. Também de nada vale a alegação “li, mas não entendi”. É preciso compreender de uma vez por todas que não se assina nada sem ler, assim como não se assina nada que foi lido, mas não foi entendido. E se o contratado se recusa a entregar o documento para ser lido com calma ou para ser levado a alguém que possa compreender as cláusulas, já é um forte indício de que algo não vai bem. É óbvio que aquele que quer se aproveitar do outro exercerá pressão sobre ele, mas cabe a cada um aprender a ser mais esperto e não ceder.

Esses alertas, porém, são suficientes para aquele que se julga vítima se sentir ofendido e indignado e despejar uma série de insultos, dizendo que “esperava mais empatia” da minha parte. Porém, empatia não vai livrar ninguém de cair em golpes e nem ensinará a se defender das próximas tentativas. Sim, obviamente haverá muitas outras investidas e, por isso mesmo, é preciso entender que se não houver autorresponsabilidade e mudança de atitude, empatia e consolo não resolverão nada.

O vitimismo tira o protagonismo e isso não é benéfico à sociedade. Ao contrário, a vitimização age como um analgésico que faz passar a dor – tornando as pessoas dependentes – enquanto encobre a causa e não leva à cura. Um prato cheio para os espertalhões que, de tão confiantes em suas estratégias e tão cientes da negligência dos enganados, chegam a dizer abertamente: “O golpe está aí, cai quem quer”.

Autora

Patricia Lages é autora de 5 best-sellers sobre finanças pessoais e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. É palestrante internacional e comentarista do JR Dinheiro, no Jornal da Record

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