Patricia Lages Análise: por que você não deve ouvir a sociedade

Análise: por que você não deve ouvir a sociedade

Cobranças impossíveis escravizam principalmente as mulheres em um ciclo infindável de insatisfação e frustração

A sociedade exige que mulheres façam tudo o tempo todo, como trabalhar e cuidar dos filhos

A sociedade exige que mulheres façam tudo o tempo todo, como trabalhar e cuidar dos filhos

Ketut Subiyanto/Pexels

Você tem 30 anos e “ainda” não é mãe. A sua decisão está baseada no fato de que trabalha oito horas por dia, de segunda a sexta, gasta mais duas horas na locomoção casa-trabalho e quase não tem tempo para cuidar casa e do marido. Sim, você cuida da casa, até porque não quer viver em um lugar sujo, bagunçado e que não lhe dá nenhum prazer. E sim, você sabe que uma vez casada precisa ter tempo para cuidar do marido e, de preferência, deixar que ele também cuide de você.

Mas aí a sociedade aparece para dizer que você vai se arrepender de não ter um filho, que o seu relógio biológico vai “gritar” e será tarde demais, que você não será uma mulher “completa” até que seja mãe e que você precisa se realizar. Ela também diz que tudo se arranja, que mulher dá conta de tudo, que é versátil, multitarefa e que o seu marido é um completo inútil se não ajudar em tudo o que você decide, independentemente do que ele pensa. Ele não é a sua cara-metade se não for a pessoa que diz “sim” para tudo o que você quiser. #ofuturoéfeminino #mulheresmandam #girlpower

Então, aos 35, depois de ouvir cobranças pelos últimos dez anos, você decide ter um filho. Já não era sem tempo, ufa! E, falando em tempo, ele continua escasso, você mal pode curtir a licença maternidade e, quando seu filho completa cinco meses, você o deixa com uma babá para voltar para o batente. Daí a sociedade aparece para dizer que você é uma desnaturada por abandonar um bebê tão pequeno e que não adianta nada o pai ajudar porque é você quem amamenta. Bebê pequeno precisa da mãe, sabia? Será que você nunca ouviu que uma criança deve ser amamentada por livre demanda? Sempre que ela quiser você tem de estar disponível para alimentá-la e isso deve ocorrer pelos próximos três anos.

Você não consegue fazer isso porque precisa trabalhar. Você até deixou o emprego para cuidar da casa e do filho por alguns meses, afinal, estava difícil de lidar com tanta cobrança e tanta culpa. Porém, além de as contas não fecharem e as dívidas começarem a surgir, a mesma sociedade apareceu novamente para dizer que você é uma “Amélia”, uma mulher anulada por ter “virado dona de casa” e que mulher sem carreira que depende do marido é a coisa mais retrógrada que existe.

Lá foi você voltar para o mercado de trabalho, mas desta vez, deixando seu filho – que já tem um ano e meio – em uma escolinha. Adivinha só quem apareceu de novo? Ela mesma, a sociedade. E sabe o que ela diz agora? Que deixar criança na mão dos outros é um risco enorme e ainda lhe conta uma série de casos de acidentes, violência e descaso por parte das “tias” com os filhos dos outros. Nesse caso, o seu filho faz parte do rol dos “filhos dos outros” e está correndo grave perigo. Mas fazer o que, né? Você foi inventar de ter filho sabendo que não tinha tempo de cuidar... Paciência!

Seu tempo fica ainda mais escasso porque precisa sair correndo do trabalho, passar na escolinha para pegar seu filho – atrasos geram multas e muita cara feia carregada de julgamentos – e deixar na casa de uma das avós, pois ainda tem que ir para a academia. Isso porque a sociedade começou a dizer que, depois que você deu à luz, ficou com corpo de quem deu à luz. Você tem que se livrar dessa “pança de grávida”, afinar os quadris e ter pernas torneadas. Além disso, também precisa de tempo para a clínica de estética, onde está em tratamento para suavizar as rugas de expressão que já começaram a surgir.

Depois terá de se virar para colocar silicone nos seios e “levantar” tudo de novo porque caiu na besteira de amamentar e fez um estrago daqueles! “Seu marido vai te trocar por uma de vinte aninhos se você não se cuidar”, avisa a sociedade. E você já sabe que quem avisa amigo é, né?

Depois de uma semana nessa maratona onde você mal teve tempo para se inteirar do que aconteceu na vida de filho, marido ou de se dedicar à casa, eis que a sociedade vai te visitar no sabadão e repara que a sua casa está de cabeça para baixo. O seu lar doce lar não tem uma decoração nem muito menos uma arrumação estilo Pinterest. Como pode? Brinquedos por todo lado, um monte de roupa para passar e uma baita pilha de louças na pia entregam que você é uma péssima dona de casa. Que horror!

O que a sociedade espera de você, mulher, é que seja mãe com corpo de quem nunca teve um filho, que cuide de si mesma como se não tivesse mais nada a fazer na vida, que se dedique à casa como se passasse o dia inteiro nela, mas se fizer isso será considerada uma maluca. A conta não fecha e o quanto antes você entender isso, mais cedo se libertará desse ciclo infinito de insatisfação que só ela, a sociedade, sabe como fazer você se enredar. Pense com a sua cabeça, empodere-se de suas decisões e seja livre.

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