Patricia Lages Análise: População despolitizada, mas politizando

Análise: População despolitizada, mas politizando

Sem conhecimento nem vontade de entender o momento que estamos passando, população toma partido sobre assuntos que não domina

Vacinação no Brasil ainda tem desinformação e politização

Vacinação no Brasil ainda tem desinformação e politização

Sedat Suna/EFE/EPA - 29.04.2021

Dia desses precisei ir ao médico e, como sempre, na sala de espera havia três opções para passar o tempo: revistas velhas, assistir o noticiário da tarde na TV ou tirar o tablet da bolsa e trabalhar. Preferi a terceira. Porém, era inevitável ouvir a conversa de uma família que chegou em seguida – avó, mãe e filha – comentando as notícias com a secretária da clínica.


Depois da atualização dos números da covid-19 na TV, a mãe fala em voz tão alta que levo um susto: “Gente, até quando esse Bolsonaro vai ficar matando o povo, hein? Genocida!” A filha, uma menina de uns 13 anos e bastante tímida, responde baixinho: “Mãe, o que mata é o ‘corona’...” Mantendo o tom anterior, a mãe devolve: “’Corona’... isso é porque esse homem doido aí já devia ter vacinado todo mundo. A culpa é dele. Só faz burrada, fica andando ‘aglomerado’ e a gente que paga! Não é moça?”

Sinto um arrepio dos pés à cabeça achando que a moça era eu, mas para o meu alívio, tratava-se da secretária que, por sua vez, responde: “Já tão vacinando, logo chega a nossa vez”. Contrariada, a mãe continua: “Devia ter vacinado no ano passado. Eu ouvi na televisão que o Brasil tá atrasado por causa desse ‘Bozo’ que não deixou vacinar o povo em 2020!”

A secretária respira fundo e diz: “Eu li que a gente não está atrasado na vacinação, não. O Brasil é o quinto ou sexto que mais vacina [é o quinto]. A gente tá andando, só precisa se cuidar e ter paciência.” Visivelmente incomodada, a mãe responde: “Olha, moça, eu vou ser obrigada a dizer que isso aí é ‘fake news’. O Brasil é o que menos vacina no mundo inteiro. Eu assisti no jornal. É porque esse genocida não quer vacinar o povo. Ele quer que a gente morra pela rua. Se ele tivesse vacinado no ano passado a gente não teria terceira onda. Mas deixa porque ele vai preso nessa CPI aí, logo, logo. Já falaram que ele vai preso na CPI, estou só esperando!”

A filha, cada vez mais afundada na poltrona, diz com um fio de voz: “Mãe, por favor... ano passado nem tinha vacina ainda, o que é que a senhora está falando?” A mãe não responde, mas a repreende com o olhar. A menina baixa a cabeça e volta ao celular. O clima pesa e, para descontrair, a secretária pergunta em tom jovial: “E a vovó, já vacinou?”

Silêncio. Achando que não havia sido ouvida, a secretária repete a pergunta e, dessa vez, a avó balança a cabeça negativamente. A mãe, então, acudiu: “Não tive tempo de levar ainda. Nem sei que documento precisa... Semana que vem a gente vê isso!” A secretária esclarece: “Só precisa do RG e do CPF dela. O posto aqui perto funciona até as 17h. O doutor mesmo já se vacinou lá e ele é mais novo do que a sua mãe. Leva ela hoje, a senhora não está com pressa?”

“Estou com pressa sim”, responde a mãe e completa: “Só que essa outra moça aí ‘do computador’ está na nossa frente. O doutor ainda vai demorar muito?”

O pior da história é que, assim como essa senhora, muitas pessoas repetem o que ouvem sem nenhum interesse em saber o que é ou não real. Limitam-se apenas a passar adiante ‘notícias’ que reforçam suas preferências, espalhando cada vez mais desinformação. Além da crise na saúde, enfrentamos uma epidemia de politização promovida por despolitizados. Se para a primeira já existem vacinas, para a segunda, ainda não há previsão.

Autora

Patricia Lages é autora de 5 best-sellers sobre finanças pessoais e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. É palestrante internacional e comentarista do JR Dinheiro, no Jornal da Record.

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