Análise: polêmica com Alessandra Negrini quase estoura a bolha progressista

A bolha da lacrosfera do politicamente correto quase explodiu, afinal, como saber se é para defender ou atacar quando alvo é uma atriz global?  

A hipocrisia carnavalesca deste ano já tem bandeira e até slogan com direito a rima: “etnia não é fantasia”. Significa dizer que sair por aí vestido de indígena – como fez a atriz global Alessandra Negrini – está cabalmente proibido pela patrulha do politicamente correto. Chega a ser engraçado, para não dizer outra coisa, haver esse tipo de protocolo quando a única regra do carnaval sempre foi “é proibido proibir”.

A ala progressista, aquela mesma que prega o amor, a igualdade (como se fosse justiça) e a tolerância, se comporta na prática de maneira totalmente diferente. Sempre que surge a oportunidade de validar suas agendas obscuras se apressam em destilar o seu ódio, assassinando reputações de quem quer que seja. Mas como a pisada na bola da vez é de uma global, nem os patrulheiros sabiam muito bem o que fazer.

O movimento que diz lutar pelo bem de todos, na verdade, luta por si mesmo, pois se autointitula defensor das minorias e se apresenta como porta-voz de quem, segundo eles, não tem condições de defender-se por si mesmo. Além de subestimar a capacidade de quem juram representar, problematizam questões que nem sequer eram objeto de discórdia, em nome de uma suposta “defesa cultural” das minorias oprimidas.

Alessandra Negrini e a apropriação cultural

Alessandra Negrini e a apropriação cultural

AgNews

Segundo o movimento, usar um adereço indígena, não sendo indígena ou um turbante africano sendo branco trata-se de apropriação cultural. Nesse caso não é homenagem, não é um manifesto para amplificar as vozes das minorias e não é unificação de povos, é roubo mesmo...

Chega a ser ridículo pensar que não poderíamos mais fazer uso de coisas originárias da cultura de outros povos, ainda mais no Brasil, onde somos o resultado de uma miscigenação intensa, ocorrida em poucos países do mundo, e que é justamente o que enriquece a nossa própria identidade. A suposta defesa das culturas é uma ideia absurda, mas que, aos poucos, vai sendo infiltrada na mente das pessoas como se fosse a coisa certa a fazer. A consequência disso não é a união, e sim, a segregação. Mas, quem se importa, não é mesmo?

Um dos casos emblemáticos que ilustra bem a fúria da “patrulha do amor ao próximo” foi o de Thauane Cordeiro, a jovem que usava um turbante em uma estação de metrô e foi abordada por uma militante: “você não deveria usar turbante, você é branca”. Tirando o acessório da cabeça, Thauane respondeu: “Tá vendo essa careca? Isso se chama câncer!”.

Mas a coisa não parou por aí. Ao desabafar nas redes sociais, o ódio contra Thauane só aumentou e as ofensas se ampliaram atingindo até mesmo sua mãe: “Disseram que ela tinha criado um lixo de filha, que eu era um lixo de ser humano porque usava de mentiras para desmoralizar um movimento”. São fatos como esse que comprovam que o “movimento” importa muito mais do que as pessoas com quem diz se preocupar, amar e lutar a favor. Afinal, se o ódio for “do bem”, que mal tem? Tempos sombrios...

Patricia Lages

 É jornalista internacional, tendo atuado na Argentina, Inglaterra e Israel. É autora de cinco best-sellers de finanças e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. Ministra cursos e palestras, tendo se apresentado no evento “Success, the only choice” na Universidade Harvard (2014). Na TV, apresenta o quadro "Economia a Dois" na Escola do Amor, Record TV. No YouTube mantém o canal "Patricia Lages - Dicas de Economia", com vídeos todas as terças e quintas.