Análise: Onde estão os mortos de sempre?

Enquanto 'consórcio de veículos de imprensa' repete o número de mortos por covid-19, não há explicação para o sumiço das mortes por outras causas

Paciente recuperado deixa hospital de campanha em São Paulo

Paciente recuperado deixa hospital de campanha em São Paulo

Sebastião Moreira/EFE - 29.06.2020

Todos os dias, invariavelmente, são divulgados os números de infectados e mortos pela covid-19. Mas você já se perguntou de onde vêm esses números? Pesquise no Google e você verá inúmeras matérias citando como fonte o “consórcio de veículos de imprensa”.

Em um primeiro momento o nome pomposo parece representar um número considerável de veículos de imprensa, mas não, são apenas seis que, na verdade, são três, pois G1, O Globo e Extra, pertencem à Globo; Folha de S.Paulo e UOL, são do mesmo grupo e, de quebra, O Estado de S.Paulo. Ou seja, apenas três grupos decidiram ser os guardiões das estatísticas em torno do novo coronavírus.

Porém, o que ninguém conseguiu explicar até agora é o fenômeno que tem ocorrido em torno de diversas causas de mortes que faziam parte das estatísticas até o ano passado, mas que simplesmente desapareceram. Em questão de meses, mais de 70 mil mortes estatisticamente esperadas para 2020 não ocorreram.

Vejamos os números oficiais que mostram uma variação considerável nos óbitos por cinco doenças:

• Pneumonia: 34.355 mortes a menos
• Septicemia: 16.837 mortes a menos
• Infarto: 9.458 mortes a menos
• AVC: 5.476 mortes a menos
• Insuficiência respiratória: 4.558 mortes a menos

Diante disso, é preciso levantar algumas questões: Onde estão os mortos de sempre? Teria ocorrido algum fenômeno para que tenhamos 70 mil mortes menos que a média dos últimos anos? É preciso estudar a fundo o que houve, pois, seja lá o que for, pode representar que mais de 70 mil pessoas deixaram de morrer, não é mesmo? Ou será que apenas teriam morrido de outra causa? Caso sim, qual e por quê? Como encarar as estatísticas futuras em relação à saúde sem entender o que está havendo em relação a dados inéditos como esses?

Outra coisa que, para mim, não está clara é por que os registros de óbito colocam na mesma conta as mortes com “suspeita de covid-19” junto com as efetivamente confirmadas? Como avaliar o verdadeiro número de óbitos quando se incluem casos em que há apenas suspeita? Como saber se todas essas mortes foram mesmo causadas por covid-19 e não por septicemia, por exemplo, uma vez que sintomas como febre e dificuldade respiratória são comuns às duas doenças?

Caso essas perguntas fiquem sem respostas, corremos o sério risco de que medidas futuras em relação à saúde sejam tomadas sobre números imprecisos e questionáveis. Se o intuito é salvar vidas, essas são perguntas que não podem ficar sem respostas.