Patricia Lages Análise: O que estão fazendo com as nossas crianças?

Análise: O que estão fazendo com as nossas crianças?

Filhos se tornaram objetos narcisistas dos pais, alunos se tornaram clientes, felicidade a todo custo se tornou depressão infantil

Futuro reservado às crianças parece não ser dos mais tranquilos

Futuro reservado às crianças parece não ser dos mais tranquilos

Free-Photos /Pixabay

“As crianças estão sendo transformadas em totens narcísicos das famílias.” É assim que Leo Fraiman, psicoterapeuta com 30 anos de carreira e autor de mais de 20 livros, incluindo A Síndrome do Imperador, define a função que a criança tem ocupado nas famílias.

Mas não é preciso ser nenhum especialista para saber que, de uns tempos para cá, as crianças têm se tornado cada vez mais mandonas, autoritárias, birrentas e desrespeitosas. Ao serem criados como o sol do planeta dos pais, os pequenos se tornam tiranos mirins, que consideram o resto do mundo como meros súditos.

Segundo Fraiman, as crianças se tornaram objetos em três níveis: são totens venerados pelos pais (que os usam para espelhar suas próprias realizações ou para fazer deles canais de entretenimento); são alvos da vaidade da família (que aplaude qualquer coisa que fazem como se fosse algo extraordinário) e preenchem o “status quo” imposto pela sociedade, que determina que todo casal precisa gerar filhos.

E é em torno desse “objeto” que uma espécie de ciclo vicioso se forma: pais desconectados de si mesmos, infelizes e frustrados por não conseguirem fazer os filhos felizes o tempo todo, e crianças igualmente desconectadas de si mesmas, infelizes e frustradas por não conseguirem suprir a necessidade insaciável de realização dos pais.

“Não é tarefa dos pais fazer os filhos felizes”, afirma Leo Fraiman. E completa: “A felicidade só é possível quando construída pelo próprio indivíduo”.  O psicoterapeuta conta que a maior queixa em seu consultório, principalmente das mães, é a culpa. Entre outras coisas, as mães sentem-se cansadas, angustiadas, temerosas, ansiosas e tristes por ver seus filhos cansados, angustiados, temerosos, ansiosos e tristes.

De acordo com Fraiman, pessoas nesse estado buscam prazeres compensatórios e um deles é o consumo exagerado. Pais se perdem cada vez mais dos filhos enquanto focam em lhes dar bugigangas materiais, e filhos se sentem cada vez mais perdidos, enquanto se veem cercados de bugigangas materiais que não os fazem felizes, mas pelas quais devem ser imensamente gratos, pois representam os sacrifícios que seus pais fazem por eles.

Fora de casa, essas crianças exigem ser tratadas da mesma forma: como imperadores que devem ser servidos sem jamais serem contrariados, com súditos cujo papel é lhes oferecer tudo o que quiserem, no momento em que sentirem vontade e da forma que determinarem. Avós, tios e demais membros da família se tornam igualmente súditos, enquanto muitas escolas as veem como clientes que, se não forem agradados, serão perdidos para a concorrência. Dessa forma, a criança não se acha um ser superior, ela tem certeza de que é um ser superior.

Mas essas crianças são apenas vítimas. Elas estão se tornando altamente dependentes de aceitação, cada vez mais cheias de dúvidas, sentindo-se quase sempre deslocadas, querendo fazer plástica aos 14 anos, maquiando-se aos 8, sem ninguém que as proteja de conteúdos inadequados que surgem aleatoriamente nas inúmeras telas diante das quais passam horas e horas.

Estes têm sido alguns dos presentes que a sociedade moderna tem dado às crianças: privação de sono, cobranças, obesidade, problemas cardiovasculares, distanciamento dos pais, aversão de quem não suporta má educação, sensação frequente de inadequação. E tudo isso tem gerado consequências que eram inimagináveis poucos anos atrás: automutilação infantil, depressão infantil, suicídio infantil. Se a infância é a melhor parte da vida, o que será de nossas crianças?

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