Patricia Lages Análise: “Nunca imaginei que meu filho fosse tão insuportável”

Análise: “Nunca imaginei que meu filho fosse tão insuportável”

Ficar em casa durante a quarentena vai além de não poder sair de casa, pois tem sido um período em que famílias descobrem que mal se conhecem

Quarentena tem de servir para sairmos como pessoas melhores

Quarentena tem de servir para sairmos como pessoas melhores

Kat Jayne/Pexels

Apenas algumas semanas atrás confinar um grupo de pessoas que não se conhecem em uma única casa, 24 horas por dia, sem poderem sair e sendo obrigadas a interagir umas com as outras seria a descrição de um reality show de televisão. A alta audiência desse tipo de programa se dá pela curiosidade e prazer mórbido que muitos têm em testemunhar brigas e discussões. Quanto maior o barraco, melhor!

Hoje, porém, esta é a realidade de grande parte das pessoas em todo o mundo, com uma pequena diferença: os “desconhecidos” que terão de conviver em confinamento são os membros da própria família e, nesse caso, ver o circo pegar fogo não tem tanta graça assim. É previsto um aumento significativo no número de divórcios pós-pandemia, considerando o que já tem acontecido em algumas partes do mundo. E a violência contra a mulher, que já registrava índices alarmantes, teve um aumento de mais de 30% durante a quarentena, mostrando que o convívio em família pode representar perigo e não segurança.

Além disso, pais têm relatado nas redes sociais que, pela primeira vez, estão desenhando, brincando e pondo os filhos para dormir. Mães estão confessando que não sabiam que os filhos gostavam da fruta X e do legume Y e que não tinham ideia do quanto estão com as lições atrasadas ou do nível de aprendizado que têm. O que se vê nas postagens são pais sendo pais na prática pela primeira vez na vida, mas não de recém-nascidos, e sim, de filhos com 6, 8 ou 10 anos de idade.

Uma postagem que me chamou a atenção foi o desabafo de uma mãe exausta, que não vê a hora da quarentena terminar: “Não aguento mais! Quando as aulas voltarem vou dar um super presente para a professora desse menino. Nunca imaginei que meu filho fosse tão insuportável!”.

Agora, reclamar que a professora exige demais do filho já não parece ter muito sentido e ligar para a direção da escola para tirar satisfações porque o herdeiro levou uma bronca começa a parecer meio descabido. As mensagens trocadas pelos pais nos grupos de WhatsApp exigindo mil coisas por parte da escola já despertam uma certa vergonha, pois finalmente, eles estão vendo que educar seus filhos não é tão fácil quanto parecia.

Há quem diga que esse “skin in the game”, ou seja, sentir na pele o que é ser pai e mãe de verdade será positivo futuramente e realmente esperamos que seja. Mas quando analisamos que o sentido da fala é poder voltar a pagar – com um “super presente” – pelos esforços de um educador, vemos que o reconhecimento da importância do papel dos pais na formação dos filhos ainda está longe de ser entendida. É como se estivessem atuando como “pais provisórios” dos próprios filhos, fazendo planos para voltar à vida “normal” assim que tudo isso acabar. Há muito trabalho pela frente durante essa quarentena se queremos mesmo sair dela sendo pessoas melhores.

Autora

Patricia Lages é autora de 5 best-sellers sobre finanças pessoais e empreendedorismo e do blog www.bolsablindada.com.br. É palestrante internacional e comentarista do JR Dinheiro, no Jornal da Record.

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