Patricia Lages Análise: Não importa o que se diz, importa o que se faz

Análise: Não importa o que se diz, importa o que se faz

Governantes expressam preocupação pela saúde, mas na hora de agir, suas medidas oprimem e dificultam as vidas que juram proteger

Governantes privam a população de suas liberdades básicas

Governantes privam a população de suas liberdades básicas

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O Brasil já não pode mais ser considerado uma democracia diante das medidas infundadas de restrição que diversos políticos têm decretado que nada têm a ver com ciência ou preocupação em salvar vidas. Enquanto privam o povo de suas liberdades básicas, ganham do próprio povo o direito de oprimi-lo, pois conseguiram convencer boa parte das pessoas – com muito marketing e muita politicagem – de que fazem o que fazem pelo bem de todos.

O controle impera por todo o país e chega a ser revoltante ver a população baixando a cabeça para medidas absurdas como obrigar pessoas com suspeita de contaminação por coronavírus a usarem uma pulseira de identificação. Seria uma nova estrela amarela “em nome da vida”? Em outras cidades a polícia tem permissão para agir com truculência contra quem tenta trabalhar ou sair de casa, seja lá pelo que for. E, falando em casa, nem dentro dela o cidadão tem autonomia, pois há municípios onde a força policial pode invadi-las a qualquer momento, agredir e até mesmo abrir fogo contra os moradores. Mas tudo isso, claro, é para salvar vidas.

No Tocantins, a partir de hoje as pessoas poderão ser rastreadas por meio de seus celulares, com a implementação da “Força-Tarefa Tolerância Zero”, decretada pelo governador Mauro Carlesse (DEM). A ação também inclui o monitoramento de redes sociais, aplicativos de transporte e outros que forneçam geolocalização. A justificativa é a de sempre: salvar vidas evitando aglomerações, mas o que ela realmente promove é uma intervenção total do estado na vida privada da população. As aglomerações dentro dos ônibus estão aí para todo mundo ver, mas isso não importa, afinal, o que esses políticos querem é carta branca para entrarem onde, até ontem, não podiam. E tudo isso com a anuência das pessoas que, apavoradas com tantas informações desencontradas, já não raciocinam mais.

E, falando em raciocínio, se fosse exigido um exame de acuidade mental muitos políticos não poderiam nem sequer se candidatar. Alberi Dias (MDB), vereador e presidente da câmara de Canela (RS), propôs promover uma “pulverização” na cidade com álcool gel, utilizando helicópteros e aviões. Enquanto tenta explicar a ideia de jogar uma substância inflamável sobre um município inteiro, ele confessa não saber se existe “álcool gel líquido”, mas sugere utilizar aeronaves de empresários da cidade para por a medida em prática. “O vírus tá no ar, né? É uma coisa de outro mundo”, declara o autor de um devaneio que só pode ter vindo de outro mundo.

Ainda no Rio Grande do Sul, o governador Eduardo Leite (PSDB), “em nome da vida”, é quem decide o que as pessoas podem ou não comprar dentro dos supermercados. A “ciência” de Leite diz que ir ao supermercado comprar arroz e feijão pode, o que não pode é a pessoa se empolgar e levar para casa, por exemplo, um liquidificador. Deve ser mais alguma medida “de outro mundo”, afinal nunca se teve notícia de que alguém tenha se contaminado por um vírus ao comprar o “item errado”. Mas é melhor não arriscar, pois vai que alguém adquire o que não agrada o governador e adoece? Não vai ter leito para tanta gente desobediente!

E em São Paulo, o ditador-marketeiro batizou os diversos protestos estado afora como “manifestações pela morte”. Até mesmo para alguém que se julga salvador classificar seus opositores como promotores da morte é uma extravagância. E como sempre acontece quando a maré está contra, as falas de João Doria (PSDB) tentam direcionar os holofotes para o lado oposto. Mais uma vez Agripino jogou toda a culpa na “irresponsabilidade e inadequação” dos manifestantes que, segundo ele, estavam “sem máscara”, aglomerando-se em ruas, avenidas e praças.

É, realmente havia muita gente por todos os lados gritando “renuncia”, inclusive na porta da mansão do governador, no Jardim Europa, onde os empregados estão trabalhando normalmente e na despensa, com toda certeza, não falta nada. Mas como passar um domingo de paz, desfrutando do bom e do melhor com gente gritando “fora Doria” para toda a vizinhança ouvir? Deve ser mesmo bem incômodo.

Tudo o que João Doria quer é que nós fiquemos quietinhos em casa, enquanto ele aumenta o ICMS sobre medicamentos e alimentos, corta verba da saúde em plena pandemia, desmonta hospitais de campanha depois de uma ligeira queda nas internações – e depois diz que faltam leitos por irresponsabilidade da União – e multiplica de maneira imoral sua verba publicitária.

É preciso acordar e não se deixar levar por esse marketing todo que tem sido muito bem pago com dinheiro do contribuinte. Não importa o que eles dizem, importa o que eles fazem e as medidas que foram e estão sendo tomadas não passam de demonstrações explícitas de autoritarismo, onde a ciência e a vida são o que menos importam.

Autora

Patricia Lages é autora de 5 best-sellers sobre finanças pessoais e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. É palestrante internacional e comentarista do JR Dinheiro, no Jornal da Record.

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