Coronavírus

Patricia Lages Análise: Não fazemos bem, mas não deixaremos ninguém fazer melhor

Análise: Não fazemos bem, mas não deixaremos ninguém fazer melhor

Esse parece ser o recado de parlamentares que querem proibir a iniciativa privada de fazer o que Estado não faz ou pretende fazer

Parte do Parlamento atrapalha ao vetar compra de vacinas por empresas privadas

Parte do Parlamento atrapalha ao vetar compra de vacinas por empresas privadas

Ueslei Marcelino/Reuters-02/02/2021

O que seria do nosso país se não fossem os políticos cuidando de nós! Eles trabalham incansavelmente para criar projetos de lei, decretos, regras e inúmeras proibições em nome de uma sociedade “mais justa”. Agem como se o Estado fosse um pai ciumento, do tipo que não permite que ninguém cuide de seus filhos, afinal, é ele quem tem de suprir todas as suas necessidades.

Na realidade, o Estado age como aquele pai divorciado que só paga pensão quando a mãe ameaça coloca-lo na cadeia, que não sabe quase nada sobre a vida do filho e não se interessa em saber. Um pai que só aparece a cada 15 dias para levar a criança até a pracinha e, talvez, comprar um saquinho de pipoca murcha.

Ele aproveita qualquer sorrisinho do filho – ainda que forçado – para fazer selfies e postar no Instagram com legendas fofas. Depois, larga o menino com as outras crianças e passa o resto da tarde contando as curtidas e dando like nos comentários de quem caiu direitinho: “super pai!”, “ele é a sua cara!” E, se der sorte, ainda vai arrancar suspiros de alguma seguidora: “Ah, se todos os homens fossem iguais a você!”

Mais tarde é só entregar a criança de volta para a mãe e seguir com a vida, ignorando a existência daquele ser pelos próximos 14 dias. Esse pai só vai aparecer além dos dias em que é obrigado, caso o padrasto se atreva a querer comprar algo para o seu filho. O menino precisa de um remédio caro, cujo preço supera o valor da pensão (aquela que é paga aos trancos e barrancos) e o salário da mãe, mas que o padrasto se oferece para comprar.

O pai se ressente com aquela afronta e telefona para a ex-esposa, esbravejando do outro lado da linha: “Eu proíbo esse homem de dar qualquer coisa para o meu filho! Eu sou o pai, eu dou tudo o que ele precisa e isso não se discute!” Porém, ao desligar o telefone, não faz nada. Não compra, não manda o dinheiro e não deixa ninguém comprar. E se a mãe cobra, diz que está providenciando, que é preciso ter paciência e que tudo se resolverá no mês que vem, sem falta. E a pergunta é: quem, no fim das contas, está sendo prejudicado nessa guerrinha de ego?

Mas esse pai egocêntrico e temperamental também poderia ser uma mãe e chamar-se, por exemplo, Tabata Amaral. Aquela que tuíta: “Estou em Brasília e trabalhando pela retirada de pauta do projeto que prevê a compra de vacinas por empresas privadas. Em um país tão desigual, não tem sentido votarmos um projeto desse.” Realmente o “raio esquerdizador” pode fazer as pessoas mais inteligentes terem raciocínios sem o menor cabimento...

O conceito de justiça da deputada federal é o mesmo que dizer que todos nós seremos obrigados a utilizar apenas o SUS, proibindo que haja assistência médica privada. Ou o mesmo que baixar um decreto que nos obrigue a matricular nossos filhos em escolas públicas, acabando com o ensino particular. Afinal de contas, “em um país tão desigual, não é justo” que quem possa pagar tenha acesso a serviços melhores ou mais rápidos do que aqueles que o governo pode prover.

Ora, se há empresas dispostas a arcar com os custos da vacinação de seus funcionários, seria isso um problema? Se a iniciativa privada quer importar doses do exterior e bancar a aplicação em seus colaboradores, deveria ser proibida de fazê-lo? Em que isso prejudica o restante da população, sendo que não representam menos vacinas, mais sim, mais vacinas? Sob que ponto de vista isso é injusto?

Injusto é saber que, por conta do fechamento das atividades econômicas, a fome está em pleno crescimento, mas mesmo assim, trabalhar para atrasar o que pode fazer as coisas voltarem ao normal mais rapidamente. Injusto é saber que, pela primeira vez em 17 anos, mais da metade da população vive em insegurança alimentar – sem ter comida na mesa ou tendo menos que o necessário – e ainda querer que elas esperem a sua vez, porque não são prioridade na fila da vacinação.

Toda e qualquer atitude, seja pública ou privada, que possa acelerar o combate à pandemia e salvar vidas deveria ser apoiada e não proibida. Mas, de novo, o que seria do nós se não fossem os nossos políticos? Felizmente, a tentativa da parlamentar de nem sequer permitir a votação foi ignorada, assim como ela mesma ignora dados e fatos, quando prefere falar de “justiça social” diante de uma doença que não escolhe vítimas. Quem não faz e não deixa fazer não entendeu ainda para quem deveria trabalhar e a quem deveria servir.

Autora

Patricia Lages é autora de 5 best-sellers sobre finanças pessoais e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. É palestrante internacional e comentarista do JR Dinheiro, no Jornal da Record.

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