Análise: “Não explique, só me diga o que fazer!”

Essa é uma frase que recebo constantemente no meu trabalho como educadora financeira, mas que pode levar muita gente para o buraco

Sempre  tem alguém disposto a ser  enganado

Sempre tem alguém disposto a ser enganado

Pixabay

O Brasil deveria ser o último país do mundo para as pessoas confiarem cegamente umas nas outras. Isso porque não faltam, de norte a sul do Brasil, histórias de golpes e enganações de todos os tipos, formatos e tamanhos.

Um fato corriqueiro como um liquidificador quebrado já pode ser ocasião para um golpe. Podem substituir a peça danificada por uma recauchutada dizendo que é nova, retirar peças boas trocando por outras de qualidade inferior ou ainda fazer uma gambiarra só para durar pelo tempo da garantia. Você vai sair sorrindo, apesar de ter acabado de ser enganado.

Mas diferentemente de um liquidificador mal consertado — que não vai causar grandes transtornos na vida de ninguém — confiar demais nos outros sem usar o mínimo de raciocínio pode colocar qualquer um em grandes apuros.

Infelizmente, vejo isso constantemente no meu trabalho como educadora financeira. Inúmeras pessoas já me ofereceram dinheiro e até procurações para que eu negociasse suas dívidas ou passasse a tomar conta de seus negócios. Quando tento explicar que é a própria pessoa que deve aprender a administrar suas finanças, logo aparece a frase: “não faça se não quiser, mas não me explique nada, só me diga o que fazer!”

É como se a pessoa dissesse: apesar de eu ter um cérebro incrível, que nem toda a ciência consegue explicar com clareza como funciona, quero desperdiçar todo meu potencial e ser igual a um cachorrinho adestrado. Você quer ser meu adestrador? Não precisa me explicar nada, só me diga para onde devo ir e eu irei na hora abanando o meu rabinho!

Serviços de namoro on-line como Tinder e Happn deveriam ser um fiasco em um país onde se pratica um golpe em cada esquina. Porém, o que se vê na prática é totalmente o contrário, pois, segundo estimativas para 2019, a receita dos aplicativos que oferecem esse tipo de serviço girou em torno de 12 milhões de dólares, o equivalente a mais de 52 milhões de reais. 

Fica claro que muita gente ainda acha que golpes só acontecem com os outros e que, quando se trata delas próprias, acreditam ter sido agraciadas com algum tipo de imunidade sobrenatural. Apostam seus recursos em pessoas que mal conhecem, superexpõe seus dados e sua intimidade para qualquer um acessar, entregam suas vidas a uma imagem atrativa que veem numa tela, sem terem a menor garantia de que aquela pessoa realmente existe e é quem diz ser.

Ingenuidade, estupidez, irresponsabilidade. Seja qual for a razão, a verdade é que não existe enganador sem que haja alguém disposto a ser enganado. Portanto, cuidado com quem fala exatamente aquilo que você quer ouvir.

Patricia Lages

É jornalista internacional, tendo atuado na Argentina, Inglaterra e Israel. É autora de cinco best-sellers de finanças e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. Ministra cursos e palestras, tendo se apresentado no evento “Success, the only choice” na Universidade Harvard (2014). Na TV, apresenta o quadro "Economia a Dois" na Escola do Amor, Record TV. No YouTube mantém o canal "Patricia Lages - Dicas de Economia", com vídeos todas as terças e quintas.