Patricia Lages Análise: Não é ciência nem fatos, são apenas sentimentos

Análise: Não é ciência nem fatos, são apenas sentimentos

A grande mídia sabe que a racionalização da informação torna difícil a manipulação, mas quando se trata de sentimentos tudo fica mais fácil.

  • Patricia Lages | Patricia Lages, do R7

Canudinhos viraram os vilões da poluição dos mares

Canudinhos viraram os vilões da poluição dos mares

Reprodução/Record TV

Para exemplificar o ponto de vista da análise de hoje, vou usar como exemplo a demonização dos canudos plásticos. Eles foram escolhidos como os grandes causadores da poluição dos oceanos e, diante disso, vários países implementaram leis para bani-los da face da terra.

Diversas redes de lanchonetes e restaurantes ao redor do mundo ganharam notoriedade – e mídia espontânea – ao divulgar que não serviriam mais o utensílio maldito e passariam a oferecer opções em outros materiais “não poluentes” e que, portanto, eram “amigos” do meio ambiente.

Todo esse movimento mundial começou em 2015, depois da viralização nas redes sociais de um vídeo mostrando o sofrimento de uma tartaruga marinha causado por um canudo plástico preso em uma de suas narinas. Foi preciso bastante tempo para conseguir retirá-lo e o animal perdeu um pouco de sangue. É difícil segurar as emoções diante de imagens desse tipo e, sendo assim, os canudos plásticos foram escolhidos como os vilões da poluição dos oceanos.

Para ampliar a imagem ruim dos canudos, em 2011, o trabalho escolar de um menino americano de 9 anos de idade chamado Milo Cress, também ganhou notoriedade. Segundo informações levantadas pela criança, os americanos usavam cerca de 500 milhões de canudos por dia. O dado foi amplamente citado em matérias de jornais como USA Today, The New York Times e The Wall Street Journal.

A imagem emocional da tartaruga somada aos dados do menino, hoje com 19 anos, reiterou a vilania dos canudos e causou toda essa comoção. Hoje em dia, quem anda com um canudo de metal na bolsa é tido como um exemplo de “eco friendly”, enquanto que, se alguém se atrever a usar um canudo plástico será severamente advertido.

Pesquisas desenvolvidas por institutos especializados no estudo da poluição dos oceanos, apontam que cerca de 8,3 bilhões de canudos chegam às praias do mundo todo. Porém, por mais que esse número seja assustador, os canudos plásticos são responsáveis por apenas 0,025% da poluição dos mares. Ou seja, não passa de uma pontinha de um enorme iceberg. A média estimada dos detritos plásticos encontrados nas principais bacias oceânicas apenas em 2010 é de 6 milhões de toneladas métricas. O problema está em tudo o que é feito de material plástico e não apenas nos canudinhos.

Mas banir todo o plástico dos oceanos simplesmente não é possível devido ao nosso estilo de vida e ao conforto e praticidade que ele nos traz. Olhe à sua volta e veja de quanto plástico o seu dia a dia é composto. Será que você estaria disposto a abrir mão de sacolas, garrafas, todo tipo de embalagens, copos, pratos e talheres plásticos? Não, ninguém está. E mesmo que você diga que sim, bastaria lembra-lo que, ao mudar de material, o preço de quase tudo subiria. Pior: nem sempre esses materiais mais caros apontados como “sustentáveis” realmente o são.

A grande mídia sabe que esse tipo de abordagem conforta, até porque ninguém irá checar se o que dizem faz sentido ou não. Além do mais, várias ONGs sobrevivem hoje em dia apenas com o intuito de garantir o banimento dos canudos, o que forra os bolsos de alguns e conforta a muitos. É conveniente fazer as pessoas acreditarem que basta abolir um único item e elas já estariam salvando as tão queridas tartaruguinhas.

Assim, quando mais imagens emocionais mostrando o sofrimento de outros animais marinhos aparecerem, todos poderão dormir tranquilos com seus canudos de metal de R$ 20. E assim, no mundo real, a maioria das pessoas sempre vai preferir o beijo da mentira do que o tapa da verdade, ainda que no mundo virtual digam o contrário. Qual é a sua escolha?

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