Análise: Monitoramento seletivo, por que alguns sim e outros não?

No Estado de São Paulo, foram soltos cerca de 30 mil presos, pouquíssimos deles com tornozeleiras de monitoramento. Enquanto isso, o cidadão paulista está sendo vigiado “em nome da saúde”. Será mesmo?

Quarentena realmente protege saúde dos brasileiros?

Quarentena realmente protege saúde dos brasileiros?

Bruno Rocha/Fotoarena/Estadão Conteúdo – 09.04.2020

Foi aberto um precedente para que, finalmente, nos seja imposto um controle quase que absoluto. E para que não haja um levante em massa por parte da população, tudo vem travestido de ações em nome de um bem maior: a saúde. Em tempo recorde o direito de ir e vir nos foi tirado à força e se tornou contravenção passível de multa. E trabalhar, quem diria, virou crime com pena de prisão.

“Estou atendendo uma cliente por dia, cumprindo todas as recomendações. Sempre usei máscara e luvas e tudo é esterilizado, mesmo assim, estou trabalhando escondida e com medo da polícia, me sentindo uma criminosa. Pagar as contas com cinco clientes por semana é impossível, mas se eu não atender nenhuma até a comida vai faltar.” Este é o relato de uma esteticista da capital paulista, cujo prédio comercial onde tem seu estúdio foi fechado.

E ela completa: “Sei que logo vou ter que parar porque um vizinho percebeu e vai acabar me denunciando. Nunca pensei que pudesse ir para a cadeia por estar trabalhando. Nunca imaginei viver para ver uma coisa assim. Não sei o que vai ser da minha vida.”

A grande mídia vende por atacado, 24 horas por dia, sete dias por semana, a ideia de que sair de casa significa caminhar para a morte. Ao receber diariamente uma verdadeira overdose de medo e pânico, muitos têm, inocentemente, ajudado a propagar o pavor, aumentando ainda mais o seu alcance, enquanto outros se entregam à desesperança. Tudo “em nome do bem”, tudo para “salvar vidas”.

Se os governos estivessem preocupados com a saúde da população, teriam investido em hospitais, postos de saúde, equipamentos, treinamento de pessoal, salários e condições minimamente dignas, tanto para os profissionais quanto para os pacientes. Nossa saúde sempre esteve às moscas e há muito mais mortes por dengue e tuberculose – há décadas – e ninguém jamais se importou tanto. A saúde está a cargo dos 27 estados e dos 5.570 municípios do país, mas será que você pode citar uma única cidade brasileira que seja um modelo de excelência em atendimento à saúde? Onde estava toda essa preocupação apenas algumas semanas atrás?

Enquanto isso, muitas pessoas estão vivendo um verdadeiro inferno dentro de suas próprias casas. O lugar onde deveriam se sentir seguras virou palco de agressões e o aumento considerável dos índices de violência doméstica estão aí para comprovar. O governo diz não ser possível proteger mulheres e crianças de seus agressores, porém, da noite para o dia, encontrou formas altamente eficazes de monitorar e punir quem se atreve a desobedecer.

É um recado bem claro, mas que poucos conseguem entender. O “fique em casa em prol da vida” é, na verdade, “fique onde nós determinamos, ainda que não tenha comida, que sofra agressões e que perca as condições de se manter economicamente. Você está em nossas mãos e não tem para onde fugir. Vai fazer exatamente aquilo que queremos”.

A jogada é tão eficiente que não foi preciso pagar profissionais altamente treinados para fazer as pessoas aceitarem tudo isso de bom grado, afinal, está incutido na cabeça de muitos que quem sair de casa coloca em risco a vida de outras pessoas. Por isso, em cada rua há quem esteja disposto a denunciar o vizinho que ousar sair para trabalhar. São vigilantes voluntários que acreditam piamente estarem fazendo o que é certo.

Para o governo de São Paulo, por exemplo, não há o menor problema em soltar milhares de presidiários sem monitoramento algum, permitindo que andem livremente pelas ruas. Pessoas que não têm nada a perder são libertadas enquanto o cidadão que resolver sair para trabalhar poderá ser preso. Postei essa reflexão em meu Instagram e uma seguidora resolveu mostrar que estou errada quanto à falta de monitoramento dos presos publicando o seguinte comentário:

“Tenho casa aí em Santos e minha filha já viu vários presos com tornozeleiras. E aqui em Minas onde eu moro também já vi vários presos com tornozeleiras.” É a população aceitando passivamente que não há o menor problema em ver presidiários pelas ruas ostentando suas tornozeleiras. Tomara que as tornozeleiras desses “vários presos” vistos andando livremente pelas ruas os façam imunes, além de não-transmissores de coronavírus. E tomara que esses dispositivos também os impeçam de roubar, assaltar, furtar, agredir, violentar, traficar e matar. Vamos torcer, pois é tudo o que podemos fazer no momento.

Não, querido leitor, não se trata de saúde, trata-se de controle. Trata-se de ferir a própria Carta Magna do país para tirar o que de mais precioso temos: a liberdade. O livre arbítrio, concedido a todo ser humano e respeitado pelo próprio Deus, está sendo roubado de cada um de nós por um punhado de políticos sedentos de poder. Não se trata de um cuidado repentino com a população – o que, por si só, já seria de se estranhar –, mas trata-se de conceder ao poder público um poder de controle que ele jamais teve. Mas tudo isso para a sua segurança...

Autora

Patricia Lages é autora de 5 best-sellers sobre finanças pessoais e empreendedorismo e do blog www.bolsablindada.com.br. É palestrante internacional e comentarista do JR Dinheiro, no Jornal da Record.