Patricia Lages Análise: Meu corpo, minhas regras, mas pode abusar da minha mente 

Análise: Meu corpo, minhas regras, mas pode abusar da minha mente 

Enquanto há muita preocupação com a preservação e o respeito ao corpo, pouco se fala sobre os abusos cometidos contra a mente  

“Se o teu corpo fosse entregue a outra pessoa, ficarias indignado. No entanto, entregas a tua mente a qualquer um que apareça, para que ele possa abusar de ti, deixando-a perturbada e apreensiva. Não tens vergonha disso?” — Epicteto

Antes de analisar a frase é preciso saber um pouco sobre seu autor. Epicteto foi um filósofo grego, nascido em 55 d.C., e que viveu boa parte da vida como escravo, em Roma. Apesar de a data de sua libertação ser incerta, diz-se que ele só deixou a escravidão por volta dos 40 anos de idade, mas, em seguida, foi exilado pelo imperador Domiciano. Portanto, como alguém que não teve controle nem mesmo sobre o próprio corpo, ele se ocupava em ter uma mente livre.

Não por acaso, Epicteto pertenceu à Escola Estoica, uma corrente filosófica cujo foco principal está na realidade, valorizando o que se pode controlar, sem sofrer com o que está fora do alcance humano. Sendo assim, ele só poderia ter uma vida de qualidade se realmente praticasse o que pregava; afinal de contas, quem pode ser verdadeiramente livre se basear sua vida em crenças, paixões e sentimentos que nem pertencem a si mesmo? Em outras palavras: quem pode ser feliz se suas ações forem fundamentadas no pensamento dos outros?

A supervalorização da opinião alheia tem feito as pessoas se submeterem a uma espécie de escravidão

A supervalorização da opinião alheia tem feito as pessoas se submeterem a uma espécie de escravidão

Pixabay

Não é preciso ser um grande estudioso para saber que a sociedade atual vive exatamente o contrário disso. A supervalorização da opinião alheia tem feito as pessoas se submeterem a uma espécie de escravidão, onde se veem presas a uma rotina exaustiva de trabalho para comprar coisas que não podem pagar e que, no fundo, só querem possuir para impressionar pessoas que nem sequer conhecem. Vivem em um mundo irreal, que se baseia em crenças rasas, paixões irracionais e sentimentos que vêm e vão.

Estamos em um mundo onde todos são controlados pelo que a publicidade — bancada por indústrias bilionárias — dita estar na moda ou fora dela. As roupas não são para cobrir o corpo, são para impressionar, seduzir, chocar. A cor, o corte e a forma de pentear os cabelos têm de acompanhar as últimas tendências. As formas do corpo precisam atender a padrões altamente artificiais, que nem a natureza nem nenhum tipo de atividade física podem proporcionar. Seu corpo, suas regras. Será?

Quanto mais a sociedade aprisiona as pessoas nessa roda dos ratos, mais promove crenças, paixões e sentimentos para vender uma falsa ideia de liberdade. Enquanto os holofotes são cada vez mais direcionados ao estabelecimento de regras para o corpo e tudo que é exterior, nas sombras, a mente se tornou uma presa fácil, vítima de todo tipo de abuso, sem que quase ninguém se importe. Você não tem vergonha disso?

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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