Coronavírus

Patricia Lages Análise: Mais lockdown para você, diversão para mim

Análise: Mais lockdown para você, diversão para mim

Sem dados comprovando a eficácia do lockdown, São Paulo repete a velha estratégia de trancar tudo, mas prefeito curte Maracanã

Torcida do Santos no Maracanã

Torcida do Santos no Maracanã

REUTERS/Mauro Pimentel - 30.1.2021

O prefeito de São Paulo, Bruno Covas, licenciou-se do cargo em 18 de janeiro para dar continuidade ao seu tratamento de câncer. A cidade está nas mãos de Ricardo Nunes, conforme muita gente previu que seria – e continuará sendo – por boa parte do novo mandato.

Apesar de a cidade ter retornado à fase vermelha aos fins de semana, quando diversos estabelecimentos comerciais não podem funcionar para “conter o avanço do coronavírus” e “diminuir a aglomeração de pessoas” que, por sua vez, devem voltar a ficar em casa, o próprio prefeito não seguiu as regras.

Covas no estádio

Covas no estádio

Reprodução

No sábado (30), Covas esteve no estádio do Maracanã, vestindo camisa do Santos, para acompanhara final da Libertadores da América. Diversas fotos do prefeito foram parar na internet e houve uma enxurrada de críticas por parte de quem ficou trancado em casa, sem poder trabalhar.

“Fica em casa pra você, final da Libertadores no Maracanã pro Bruno Covas”, comentou um internauta. “Bruno Covas, que trancou a cidade, foi a Maracanã assistir o final da Libertadores!! Parabéns pela hipocrisia. Um tapa na cara da sociedade”, postou outro.

Além das reclamações, outros comentários lembraram que Covas é do grupo de risco, está em tratamento médico delicado e que o último lugar que deveria estar seria em um estádio de futebol em contato com diversas pessoas.

Para além da audácia de criar regras para os outros, mas se achar no direito de não cumpri-las está o fato de que, passado um ano de convivência com o coronavírus, vários países que tiveram lockdowns severos não apresentaram menos casos do que os que não tiveram.

Na Itália, onde o governo tenta impor novamente o fechamento do comércio, um movimento crescente chamado “eu abro” tem reunido cada vez mais donos de restaurantes que não estão mais dispostos a respeitar as regras. Nas redes sociais, o movimento já conta com mais de 50 mil apoiadores.

Para Michael Levitt, professor da Universidade Stanford e vencedor do Nobel de química em 2013, o lockdown é uma “perda de tempo” e pode matar mais pessoas do que a própria doença que se tenta evitar. Para Levitt, as medidas severas de isolamento foram tomadas mais por pânico do que por evidências científicas conclusivas.

“Eu acho que ele pode ter custado mais vidas. Pode ter poupado vidas que seriam perdidas em acidentes de trânsito, coisas assim, mas o dano social foi extremo. E há também quem deixou de ser tratado por outras condições médicas”, afirmou em entrevista ao jornal britânico The Telegraph.

Resta saber até quanto ficaremos à mercê de um abre-e-fecha que só vale para nós, mas não por quem o determina. E também até quando o comércio aguenta tantos golpes a troco de medidas sem comprovação científica de eficácia enquanto transporte coletivo continua cheio. Talvez uma solução seria começarmos a trabalhar dentro dos ônibus, afinal, lá pode tudo.

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