Patricia Lages Análise: Linguagem neutra prejudica mais de 43 milhões de brasileiros

Análise: Linguagem neutra prejudica mais de 43 milhões de brasileiros

Para incluir 1,2% da população que se considera não binária, linguagem neutra exclui mais de 43 milhões de brasileiros 

Linguagem neutra seria um complicador para quem lê em braile, por exemplo

Linguagem neutra seria um complicador para quem lê em braile, por exemplo

Reprodução/Agência Brasil

Ao contrário do que propõe, a linguagem neutra não é inclusiva. Isso porque, em uma primeira análise, para incluir 1,2% da população – que corresponde a pouco mais de 2,5 milhões de pessoas que se reconhecem como não binárias –, exclui mais de 43 milhões de brasileiros.

De acordo com a Associação Brasileira de Dislexia (ABD), 15% da população brasileira é disléxica – o que representa cerca de 32 milhões de pessoas – e, em consequência disso, apresenta distúrbios de aprendizado que afetam a leitura, a escrita e a soletração. Quaisquer alterações de linguagem podem representar um aumento da dificuldade no aprendizado.

Da mesma forma, a interpretação da leitura labial dos surdos, que representam 5% da população ou mais de 10,5 milhões de pessoas, fica prejudicada com a mudança em diversas palavras. Segundo estimativas da Organização Mundial de Saúde (OMS), até 2050, cerca de 900 milhões de pessoas no mundo poderão desenvolver surdez, ampliando o número global de prejudicados pela linguagem neutra.

Segundo dados do último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tem 6,5 milhões de pessoas com deficiência visual, sendo 582 mil cegos e cerca de 6 milhões com baixa visão. Para essa população, o braile e o uso de softwares especializados são as únicas formas de leitura. Mas, se por um lado os títulos em braile já são bastante escassos, os softwares – que são mais acessíveis – se tornariam um meio mais complexo de ser compreendido. Além disso, a alfabetização de crianças cegas se torna um desafio ainda maior.

Para a professora de português Cintia Chagas, colunista da Forbes e autora de dois best-sellers sobre língua portuguesa, a linguagem neutra é um desserviço ao idioma. “Dizer boa-noite a todos e a todas é uma redundância. Dizer boa-noite a ‘todes’ é uma imbecilidade. Não tenho nenhum problema com os não binários, absolutamente nenhum, mas há que compreender a verdade”, declara Chagas, que conclui: “O dialeto exclui mais do que inclui. É uma aberração linguística. O que eles ganham com isso?”.

Em um país com um índice de analfabetismo funcional altíssimo, fica a pergunta de quem trabalha há décadas para que os brasileiros falem e escrevam melhor: o que eles ganham com isso?

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