Patricia Lages Análise: Implantação de autocensura, a guerra silenciosa

Análise: Implantação de autocensura, a guerra silenciosa

Em um mundo de possibilidades infinitas, a autocensura cai como uma luva para quem quer controlar pensamentos e atitudes

Escolhas hoje em dia são muito mais complicadas e envolvem até autocensura

Escolhas hoje em dia são muito mais complicadas e envolvem até autocensura

ThisIsEngineering/Pexels

Com o distanciamento social e o aumento do uso de ferramentas de comunicação remota, onde as conversas acabam ficando documentadas de certa forma, é nítida a presença de uma espécie de autocensura por parte de quem teme se tornar vítima de julgamentos. É bem verdade que esse “autopatrulhamento” já vinha acontecendo antes da pandemia, mas nos últimos quatorze meses tenho testemunhado um crescimento desse comportamento.

Hoje, não basta apenas transmitir uma informação, mas, antes de qualquer coisa, é necessário entender qual é a posição política da pessoa do outro lado do WhatsApp, qual a cor de sua pele e sua preferência sexual. Afinal de contas, qualquer colocação que não esteja alinhada com os pensamentos do outro provavelmente será considerada preconceituosa, ofensiva ou, no mínimo, politicamente incorreta.

Dias atrás, uma passagem de brienfing de projeto que não teria demorado mais do que cinco minutos acabou se transformando em uma reunião de mais de meia hora. Tudo isso porque o cliente informou ao coordenador da equipe que queria uma modelo de pele morena – nem negra e nem branca – para um determinado trabalho. A questão é que a pessoa simplesmente não sabia como transmitir essa informação.

Como se estivéssemos em uma brincadeira de adivinhação, o coordenador começou a dar pistas para matarmos a xarada: “vocês se lembram que na última campanha tivemos uma modelo loira? Então, agora é o contrário, mas não muito, entenderam?” É claro que ninguém entendeu, afinal de contas, qual é o contrário de modelo loira? Seria um homem que não é modelo e nem loiro? E o que significa “contrário, mas não muito”?

Por fim, o desabafo: “gente, eu tentei, mas não tá funcionando! Não é ‘culpa’ minha, mas não sei como dizer isso... é que o cliente quer uma modelo de pele escura, mas não muito. Pronto, falei!” Por não ter sido xingado, ofendido ou qualquer coisa dessa natureza, ele respirou aliviado, agradeceu a “todes” pelo “apoio” e se sentiu à vontade para descrever a tensão que havia passado antes da reunião, afinal, a última coisa que queria na vida era “pagar de preconceituoso” ou “ofender” alguém. Mas desde quando especificar um tipo de perfil significa ser preconceituoso ou ofender todas as demais pessoas que não se encaixam? Como chegamos a esse nível de estupidez?

O patrulhamento da fala chegou a um patamar onde a própria pessoa se tornou seu maior censurador por medo de ser vítima de más interpretações, e é aí que está o ponto principal da questão. As pressões externas do politicamente correto já se enraizaram no pensamento de muitos e começam a mostrar claramente o seu maior objetivo: controlar e limitar o modo de agir das pessoas.

Primeiro você censura a fala reagindo violentamente a toda e qualquer expressão que possa dar margem para interpretações ofensivas, ainda que não tenham nenhum sentido. Se executar bem esse trabalho, conseguirá mudar a forma de pensar das pessoas, fazendo com que elas próprias, além de não perceberem que estão sendo censuradas, se transformem em seus aliados. Por fim, elas começarão a agir roboticamente apenas para não serem “canceladas”. Pronto! Você ganhará essa espécie de guerra silenciosa sem disparar um tiro sequer. O novo campo de batalha é a mente das pessoas. Controle isso e não haverá limites para você.

Autora

Patricia Lages é autora de 5 best-sellers sobre finanças pessoais e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. É palestrante internacional e comentarista do JR Dinheiro, no Jornal da Record.

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