Análise: Ilusão da vida sem sofrimento e sacrifício

Educação moderna tende a considerar corretas ações que visam poupar crianças de constrangimento, sofrimento ou sacrifício. Seria o melhor caminho?

Os Millennials dão origem à geração Z

Os Millennials dão origem à geração Z

Helena Lopes/Pexels

Ao fazer uma análise do comportamento das últimas gerações, vemos claramente que os acontecimentos externos influenciam muito na criação dos filhos. Os Baby Boomers, filhos de quem viveu em época de guerra – nascidos entre 1950 e 1960 – são conhecidos como a geração do “lutar pelo que quer”. A educação era baseada em valores como trabalhar e se esforçar para poder construir uma vida estável e de paz.

A Geração X, filhos dos Baby boomers, recebeu uma educação conservadora e, mesmo vivendo em uma época próspera, foi ensinada a lutar pelo que queria, sem que os pais facilitassem essa batalha. Cada um tinha de crescer segundo seus próprios méritos. Porém, na hora de criar seus próprios filhos – a Geração Y – os X preferiram perseguir a máxima “vou dar ao meu filho tudo aquilo que não tive”. O merecimento estava apenas no fato de serem filhos, e cabia aos pais poupá-los ao máximo de qualquer privação.

A Geração Y ou Millenials, é a geração da tecnologia, criada como pequenos gênios e com a crença de que tinham direito a tudo o que quisessem. Foi a partir dessa geração que os idosos começaram a deixar de serem vistos como fontes de sabedoria, afinal, eles pareciam crianças diante de um computador e dependiam dos netos para realizar tarefas tecnologicamente simples.

Hoje, a Geração Z, filha dos Millenials, é a que mais apresenta problemas comportamentais e psicológicos. É uma geração que viu seus pais tomarem a frente de seus problemas, que não permitiam que professores chamassem sua atenção e que os superprotegeu de tudo e todos. Hoje, já adultos, não sabem lidar por si mesmos com problemas simples, pois estão acostumados que alguém cumpra esse papel.

O que salta aos olhos nessa análise é ver que quanto mais facilidades, mais problemas, porém, mesmo diante dessa evolução histórica, o número de pais que querem criar seus filhos dentro da ilusão de que a vida não pode ter sofrimentos, decepções ou sacrifícios próprios é enorme. Recebo pedidos de consultoria financeira onde pais querem programar seus investimentos para pagar um intercâmbio, a faculdade e uma pós para o filho, garantir a ele um imóvel próprio, ter capital para que ele abra um negócio e um montante extra para que não haja preocupações com aposentadoria. Um deles chegou a dizer: “quero que meu filho viva apenas a parte boa da vida”.

Parece muito bom, mas pensamentos que visam evitar que crianças sofram decepções, como repetir de ano ou perder uma competição, têm tirado delas a motivação para traçarem e perseguirem seus próprios objetivos. Uma vida baseada em algo totalmente irreal, como nunca ter de se sacrificar por nada, tem deixado um rastro de negatividade que se desdobra em uma vida de insatisfação crônica, elevando a ansiedade a níveis nunca vistos e culminando no mal deste século: uma doença incurável chamada depressão.

Autora

Patricia Lages é autora de 5 best-sellers sobre finanças pessoais e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. É palestrante internacional e comentarista do JR Dinheiro, no Jornal da Record.