Patricia Lages Análise: hegemonia feminina também prejudica não feministas

Análise: hegemonia feminina também prejudica não feministas

Mesmo sem intenção de privilegiar mulheres em detrimento dos homens, meu negócio 100% feminino quebrou

Meu primeiro negócio gerou dívida gigantesca

Meu primeiro negócio gerou dívida gigantesca

Mikhail Nilov/Pexels

Depois de anos sonhando em ter meu próprio negócio, no ano 2000 a oportunidade de assumir um comércio atacadista de lingerie bateu à minha porta. Tudo parecia mais do que perfeito: duas irmãs haviam rompido a sociedade e estavam passando a loja – com tudo dentro – por um investimento simbólico: mil reais.

O valor (que hoje seria em torno de R$ 3.100), me dava o direito de ficar com todos os móveis, manequins e demais acessórios, os cadastros dos clientes e fornecedores e um pequeno estoque de peças para começar. Fiquei também com a gerente e as vendedoras que já conheciam o andamento do negócio e, da noite para o dia, decidi abandonar minha carreira de quase dez anos na comunicação para me tornar empreendedora.

Naquela época, feminismo para mim era apenas uma palavra distante e eu jamais havia pensado em trabalhar em um ramo voltado exclusivamente para mulheres. Na verdade, as coisas aconteceram tão rapidamente que não deu tempo de lembrar das duas péssimas experiências que tive em ambientes 100% femininos.

A primeira foi aos 17 anos em uma sala de aula com 45 mulheres e nenhum homem. Naturalmente se formaram inúmeras “panelinhas” onde umas gratuitamente odiavam as outras. Nunca vi tanta fofoca, inveja, brigas estúpidas e todo tipo de competição. Mais tarde, aos 20 anos, trabalhei em um departamento com apenas quatro mulheres onde, invariavelmente, duas se juntavam para falar mal das outras duas ou três se uniam contra uma. Foi o ambiente mais tóxico de toda a minha carreira e, quando me dei conta que eu mesma havia me tornado uma pessoa tóxica, pedi transferência.

Embora eu não tenha sabido administrar o negócio, uma das coisas que contribuiu para o meu fracasso foi o péssimo ambiente que se formou: inveja, competições, fofocas e brigas, mas desta vez com um agravante: inúmeras imposições, pois como “eu também era mulher”, tinha que entender tudo de errado que faziam. Comecei a ir para a loja cada vez menos e, com isso, o barco afundou em questão de poucos meses.

Apesar de eu ter ficado com uma dívida astronômica e estar enfrentando um divórcio nada amigável, não houve sororidade alguma no momento de me cobrarem “seus direitos”. E mais: mesmo tendo alguns clientes homens, donos de lojas de varejo, todos os calotes que levei foram dados por mulheres, sem dó nem piedade. Até pouco tempo atrás, não havia me dado conta do quão tóxico pode ser um ambiente sem diversidade de gênero, principalmente onde há apenas mulheres. Porém, ao conhecer histórias de negócios 100% femininos que também deram errado, (como você pode conferir neste artigo) pude perceber que a relação existe mesmo para quem não tem intenção de “lacrar”.

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