Patricia Lages Análise: Golpes, desatenção e o papel das novas mídias

Análise: Golpes, desatenção e o papel das novas mídias

Número de golpes pela internet sobe a cada ano e a desatenção transforma praticamente qualquer um em vítima

Desatenção e falta de cuidado formam campo fértil para golpes na internet

Desatenção e falta de cuidado formam campo fértil para golpes na internet

TheDigitalWay / Pixabay

No início de 2021, O Instituto de Segurança Pública (ISP) divulgou um estudo apontando que o número de golpes pela internet triplicou em 2020 em comparação com o ano anterior. Porém, essa estatística pode ser bem maior, visto que boa parte das vítimas prefere não prestar queixa para evitar constrangimentos.

É curioso que todo tipo de golpe ainda prospere em um país conhecido pelos inúmeros cambalachos e mutretas e que, apesar de todos os exemplos de falcatruas que se veem diariamente, muita gente ainda confie piamente na palavra de pessoas que nem sequer conhecem. A falta de prudência do brasileiro, em alguns casos, chega a beirar a ingenuidade.

Refletindo sobre essa questão e analisando os muitos relatos que recebo de pessoas vítimas de golpes (principalmente financeiros), tenho acreditado cada vez mais na teoria de que, no fundo, as pessoas estão mais desatentas do que nunca e isso as torna presas fáceis. Uma das causas dessa desatenção é o bombardeio de informações e dados aos quais elas mesmas se submetem.

É simples: observe o quanto se tornou difícil prender a atenção de uma pessoa por meros dois minutos. E não me refiro a crianças – que realmente se distraem facilmente – mas sim, a adultos. Se você for um pouco mais observador do que a maioria vai facilmente se dar conta de que, apesar de seu interlocutor parecer estar ouvindo o que você diz, seu pensamento pode estar muito longe. Basta fazer uma pergunta e você terá certeza de que a pessoa não ouviu uma palavra sequer.

Parece que, passados 15 segundos de conversa, a pessoa já está em outro “storie” ou assistindo mentalmente o “próximo vídeo” que o autoplay do “reels” está exibindo. É como se estivéssemos sendo condicionados a um nível de desatenção que, em certos momentos, parece um tipo de hipnose, onde o corpo pode até estar presente, mas o nível de consciência está, de alguma forma, comprometido.

As mídias digitais vieram para ficar, não há dúvida quanto a isso. Elas podem sofrer alterações, reformulações e atualizações, porém, o que parece é que a cada nova mudança, as pessoas estão perdendo a interação – tão celebrada com o advento da internet – e sendo cada vez mais submetidas à passividade. Eram apenas os algoritmos que sugeriam o próximo vídeo e o post seguinte, mas com o surgimento do autoplay, as sugestões não precisam mais esperar pelo seu aceite, elas simplesmente se auto reproduzem cabendo a você apenas assistir, inerte, sem raciocinar, por horas e horas e horas.

Não tenho conhecimento de nenhum estudo científico que comprove a ligação da desatenção pelo uso das novas ferramentas das redes sociais ao sucesso dos golpes pela internet, mas creio que seja positivo considerar a possibilidade para selecionarmos melhor o tipo de conteúdo que acessamos. Afinal, cautela e canja de galinha...

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