Patricia Lages Análise: Folia no Brasil é coisa séria e exige “responsabilidade”

Análise: Folia no Brasil é coisa séria e exige “responsabilidade”

Prefeito de São Paulo afirma que seria “irresponsabilidade” cancelar o Carnaval agora, pois a folia “gera empregos e movimentação financeira”

Carnaval em São Paulo: a saúde a gente vê depois

Carnaval em São Paulo: a saúde a gente vê depois

TIAGO QUEIROZ/ ESTADÃO CONTEÚDO

A prefeitura de São Paulo tem seus mistérios e quem se aventura a tentar desvendá-los pode ficar cada vez mais confuso. Para citar alguns exemplos, a cidade exige que seus munícipes mantenham as calçadas de seus imóveis impecáveis, enquanto asfalta as ruas da pior maneira possível. E, apesar de não ter uma infraestrutura decente, exige de quem vai reformar ou construir, o cumprimento de um sem-fim de regras que fazem com que o proprietário do imóvel esteja sempre errado e passível de ser multado.

Mas foi na pandemia que tivemos as maiores demonstrações de incoerência. Testemunhamos a prefeitura implementar um super rodízio para que ninguém saísse de carro a fim de “salvar vidas”, enquanto tirava metade da frota de ônibus de circulação para “evitar aglomerações”.

Deve ter sido também em prol da vida que, em abril de 2020, a prefeitura divulgou algumas medidas fúnebres para conter a pandemia: compra de 38 mil caixões e serviço funerário 24 horas por dia. Para demonstrar o quanto aquilo era “necessário”, foi exibido um vídeo onde pessoas caíam mortas pelas ruas de Guayaquil, no Equador, supostamente por terem sido infectadas pelo coronavírus. Se ainda é fácil impressionar a população depois de 22 meses de medidas sem pé nem cabeça, imagine a moleza que foi no início...

Mas eis que agora a mesma prefeitura que soldou porta de comércio para fazer valer à força a política do “fique em casa e a economia a gente vê depois” está cheia de dedos em relação ao Carnaval. O prefeito Ricardo Nunes (MDB), afirmou hoje em uma entrevista que o “Carnaval na cidade gera cerca de 20 mil empregos e traz uma movimentação financeira de R$ 2,7 bilhões”. Ele também e acrescentou que “seria irresponsabilidade” cancelar a folia agora. Nesse caso, que nome se dá ao fechamento de milhares de empresas e aos muito mais de 20 mil empregos que foram perdidos por conta do #fiqueemcasa?

De acordo com o Decreto nº 60.681, de 27/10/2021, a cidade mantém as restrições de uso de máscara e apresentação do Passaporte da Vacina. A prefeitura estima que o Carnaval 2022 reunirá 15 milhões de pessoas e será um dos maiores do Brasil, resta saber como será possível verificar quem está ou não vacinado e o que será feito para obrigar as pessoas a cumprirem o decreto de usar máscaras. Pelo que vimos no Carnaval fora de época, estava tudo mais do que liberado e não se tem notícia de que alguém tenha sido multado por estar sem máscara.

Quando o assunto é folia, temos uma administração “responsável” e ponderada. Agora não é hora de exibir filminho em tom fúnebre com gente caindo morta pelas ruas. Agora é hora de ir para a rua em prol de “emprego e movimento financeiro”. A saúde a gente vê depois.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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