Análise: Finja que não mente que eu finjo que acredito

No Brasil, estamos tão acostumados que as coisas não são como deveriam ser que já não temos mais disposição para revidar 

Brasileiro se habituou a fingir que não mente

Brasileiro se habituou a fingir que não mente

Thinkstock

Você está em casa assistindo ao seu programa de TV favorito quando, na hora do intervalo, aparece um hambúrguer enorme, com camadas bem definidas de ingredientes de um frescor sem igual. Bate aquela fome, você pede o sanduíche via delivery e aguarda o tempo de espera de 20 minutos, como indicado no aplicativo.

Passam-se 40 minutos e você consulta novamente o app, que indica o status do seu pedido: “Em trânsito”. Quase 1 hora depois, finalmente a sua entrega chega. O sanduíche não parece ser o mesmo. Com uma aparência nada apetitosa, ele chega amassado, revirado, faltando uma coisa ou outra. As fritas esfriaram, e a bebida fria esquentou. Mas é melhor do que nada!

Você engole tudo, distraído, assistindo a mais propagandas. Só que agora você se anima ao ver o comercial de alguém que faz a casa brilhar apenas com um paninho úmido. Que produto incrível! A câmera fecha em um fogão exageradamente engordurado, mas que, sob uma única passada daquele paninho embebido no produto milagroso, fica reluzente como novo.

No dia seguinte, você vai ao supermercado e faz questão de comprar o produto que vai resolver a sua vida na cozinha. O seu fogão não está nem perto da sujeira daquele da propaganda, mesmo assim, a gordura não sai. Você troca o paninho por uma bucha. Esfrega com um pouquinho mais de força e... nada! Troca a bucha por uma esponja abrasiva, esfrega com vigor e, aí sim, a gordura cede. E é aí que você percebe que, de tão concentrado na tentativa de limpar o fogão, esqueceu de colocar o produto na esponja. Lá vai mais um limpador inútil para o armário, mas, pelo menos, ele tem um cheirinho bom. Melhor do que nada!

Mas aí o fogão dá defeito e a garantia que assegura assistência técnica em 24 horas pede três dias para a visita. Você tem que entender que não é só o seu fogão que deu defeito, né? No quinto dia de espera, usando o micro-ondas como quebra-galho, você liga novamente e descobre que a visita consta como “realizada”, mesmo sem ter aparecido ninguém na sua casa. A sua reclamação é acatada e a visita remarcada, porém, só há data para a semana que vem. Não lhe resta alternativa senão aguardar e continuar usando o micro-ondas. Afinal, poderia ser pior...

De tanta comida congelada o seu estômago reclama e você lembra que precisa marcar aquele exame que o plano de saúde não deu cobertura devido a uma carência. Quem sabe agora a carência já venceu, não é mesmo? Você se informa e descobre que nunca houve carência, foi um erro da atendente, mas, como a sua guia de exame já venceu, terá de marcar outra consulta e passar novamente com o médico. Mas isso não é problema, afinal, a consulta não dura mais do que 5 minutos e o médico nem vai lembrar que você esteve lá no mês passado. É tanta gente que ele atende correndo que não dá para criar vínculo com paciente algum. Não é bem o que o plano de saúde prometeu na propaganda, mas... de novo: é melhor do que nada!

E assim vamos sobrevivendo. Usando limpadores que não limpam, pagando garantias que não garantem nada, contratando serviços que não servem, pagando sempre mais por muito menos. O Brasil se tornou o país onde um finge que não mente enquanto o outro finge que acredita. Mais do que uma crise econômica e política, vivemos uma crise ética generalizada, em que as pessoas não têm mais vergonha alguma de não cumprirem o que prometem.

A surpresa fica por conta das raras vezes que recebemos o que pagamos ou que alguém, pelo menos, chegue no horário combinado. O que deveria ser regra virou exceção, portanto, quem não aceita essa régua baixa precisa estar focado em viver fora do padrão o tempo todo. Cabe a cada um de nós analisar em que altura a nossa régua está.

Autora

Patricia Lages é autora de 5 best-sellers sobre finanças pessoais e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. É palestrante internacional e comentarista do JR Dinheiro, no Jornal da Record