Patricia Lages Análise: “Fakeland”, você conseguiria morar lá?

Análise: “Fakeland”, você conseguiria morar lá?

Imagine um reino onde cidadãos de bem são presos em casa e bandidos são soltos; onde a mentira vale mais que a verdade e o medo supera a liberdade. Que tal viver lá?

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Na Fakeland as coisas são feitas às avessas, mas seus cidadãos parecem não se incomodar. Os fakelanders, moradores dessa terra distante, são seres fascinantes, pois têm um alto poder de adaptação e são dotados de cérebros com uma capacidade tamanha e cheios de segredos que nem mesmo os mais sábios estudiosos conseguiram desvendar.

Porém, em contrapartida, os fakelanders costumam subestimar a si mesmos e a maioria deles não consegue compreender o quão fantásticos são. Eles têm corpos incríveis, mas muitos não dão o menor valor, expondo-se a situações perigosas, ridículas e até mesmo vulgares. Eles acham que isso é liberdade.

E, falando em liberdade, os fakelanders realmente têm dificuldade em compreendê-la. Para alguns, faz sentido que os príncipes do reino – os quais eles detestam – ditem o que podem ou não fazer. Eles obedecem à risca, mesmo que a ordem seja para ficarem presos dentro de casa e serem impedidos até mesmo de trabalhar. E tem mais: não é porque não estão trabalhando que serão liberados de pagar seus impostos. Na Fakeland, uma coisa não tem nada a ver com a outra.

Os príncipes sempre quiseram manter os fakelanders sob controle total, mas até um tempo atrás, eles eram rebeldes e não davam ouvidos aos desmandos dos monarcas. Agora, porém, eis que surge um aliado infalível para que o plano viesse a dar certo: o medo. É certo que os fakelanders sempre conviveram com o medo, pois o reino é violento, cheio das mais diversas doenças e de todos os tipos de perigo. Mas tem coisas que eu ainda não disse sobre os fakelanders: eles têm memória curta e são altamente influenciáveis.

Certo dia, foi divulgado que havia surgido um inimigo maior do que todos os demais – ainda que não fosse – e que todo mundo poderia morrer por conta dele – ainda que tenham deixado escapar que a mortalidade era baixa. De qualquer forma, os fakelanders não se apegam a detalhes. A solução para manterem-se vivos seria abandonar todos os afazeres, planos e objetivos de vida e ficar dentro de casa por tempo indeterminado. É claro que os fakelanders não acreditaram logo de cara, pois não havia nenhum consenso entre os sábios. Porém, de tanto repetirem a mesma coisa aumentando cada vez mais os apelos emocionais, os fakelanders não resistiram.

A combinação de medo e emoção em doses cavalares foi realmente eficiente, pois, mesmo diante de pesquisas comprovando que quem ficou em casa adoeceu tanto ou ainda mais do que os rebeldes que teimavam em circular, os fakelanders continuaram dentro de casa repetindo um mantra que lhes trazia sensação de bem-estar. E, claro, em nome do bem-estar da população, milhares de presidiários condenados foram soltos porque a justiça do reino – ainda não defini por qual motivo – decidiu soltá-los para que eles também ficassem em suas casas, mesmo sabendo que eles não fariam isso.

O poder de persuasão dos príncipes e seus aliados é impressionante, afinal, ao mesmo tempo que eles afirmam que todo o controle imposto é para a segurança de todos, soltam os bandidos mais perigosos sabendo que eles irão aterrorizar o reino e colocar a tal segurança de todos em jogo.

Eu sei que está confuso, mas lembre-se que trata-se de uma ficção e ainda não chegamos ao fim. Além disso, conto com a licença poética para justificar algumas incongruências na história, como esta: primeiramente o tal inimigo mortal atacava todos os dias da semana, durante as 24 horas do dia. Mas, como os fakelanders começaram a reclamar que estava chato não poder sair para nada, os príncipes decidiram afrouxar um pouco o controle. Para isso, começaram a divulgar que em alguns horários do dia o inimigo dava uma trégua. Logo, eles podiam ir a alguns locais que os príncipes classificaram como “seguros” e em horários aleatoriamente por eles determinados.

Era assim: os fakelanders podiam ir até a restaurantes, desde que se comprometessem a não permanecer em nenhum deles após as 22h. De tão entorpecidos pelo medo, os fakelanders acreditaram, sem argumentar, que jantar até as 21h59 não lhes traria nenhum risco, mas se passassem disso, estariam abusando da sorte. Sim, sorte. Afinal de contas, para quem ficou preso durante meses é uma sorte ter príncipes tão benevolentes que lhes permitam sair de casa, ainda que seja sob todo esse controle.

Não sei se esse conto resultaria em um bom livro ou, quem sabe, renderia um filme. Em todo caso, vou continuar trabalhando nele para ver no que dá. O que sei até o momento é que ninguém em sã consciência gostaria de viver na Fakeland, mas como as pessoas precisam de um pouco de descontração, acho que tenho uma chance de emplacar um best-seller na categoria ficção.

Autora

Patricia Lages é autora de 5 best-sellers sobre finanças pessoais e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. É palestrante internacional e comentarista do JR Dinheiro, no Jornal da Record.

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