Análise: Era da informação ou da confusão?

Como o aumento massivo do acesso à informação culminou em um período obscuro onde até obviedades são negadas

Avanço da informação gerado pela internet nos conduz a um retrocesso

Avanço da informação gerado pela internet nos conduz a um retrocesso

Markus Spiske/Pexels

Com o advento da internet e a infinidade de facilidades que nos trouxe, principalmente em relação ao acesso à informação, seria inimaginável que tal avanço nos conduziria a um retrocesso. É certo que vários estudiosos haviam previsto décadas atrás um provável déficit em relação ao raciocínio, pois a falta da necessidade de fazer cálculos de cabeça, decorar caminhos ou números de telefone demandaria menos esforços do nosso cérebro. Mas não é a isso que me refiro.

O que qualquer um poderia supor é que, com mais informações, teríamos menos ignorância. E com a possibilidade de qualquer pessoa ganhar voz, principalmente com as redes sociais, teríamos mais democracia. Porém, não é isso que temos visto de uns tempos para cá, pois em vez de as pessoas se tornarem mais racionais, estão agindo cada vez mais movidas por suas emoções. As coisas estão deixando de ser como são para serem como as pessoas “sentem” que são. Com isso, surgem a cada momento ideologias – que como o próprio nome diz são ideias e não ciência – que contradizem não só o bom-senso, mas também a realidade em si.

Um tempo atrás uma adolescente me disse que eu, como uma pessoa que “mexe com número”, já deveria saber que matemática “não é mais uma ciência exata”. Perguntei se ela estava se referindo a estatística, mas como ela nem sequer sabia do que se tratava, limitou-se a responder: “minha professora provou que dois mais dois são cinco e não quatro, como antigamente”. Sem saber explicar como isso seria possível, finalizou a conversa aborrecida pela “pressão” que eu estaria fazendo: “olha, não lembro, tá? Só sei que na hora fez sentido.”

Poucas décadas atrás, qualquer casal concordaria que educar uma criança é uma tarefa árdua, assim como qualquer mãe concordaria que criá-la sozinha seria mais difícil ainda. Agora, porém, a sociedade moderna prega que um pai não é necessário para a educação de um filho. O “bonde das empoderadas” está passando ao som do hino de que mães suprem 100% das necessidades dos filhos, ao mesmo tempo que também tocam o “funk reclamão” cujo refrão ataca justamente a falta de interesse dos pais em relação aos filhos. Confusão é pouco...

Elas até dizem que meninos sem pai podem aprender a ser meninos seguindo o exemplo de qualquer outro homem: um avô, um tio, um amigo, até um youtuber. Mas já que pode ser qualquer um, por que excluir o próprio pai? E há quem diga que uma mulher pode ensinar um menino a ser um homem, mas criança aprende muito mais com exemplo do que com teoria.

Além disso, há inúmeros estudos que apontam uma infinidade de problemas que podem ser levados até a vida adulta por conta de uma criação sem a figura paterna. Porém, quanto mais óbvio se torna, menos consenso existe. E para maquiar as contradições, eis que um termo cai como uma luva: ressignificar. Qualquer coisa absurda pode ser imposta sob a bandeira da ressignificação.

É óbvio que uma sociedade dividida se torna muito mais fraca, mas ainda assim, caminhamos a passos largos para um mundo cada vez mais fragmentado, onde sempre existe um “nós contra eles” sem que as pessoas percebam os interesses de uma elite poderosa por trás disso tudo.

É óbvio que amor, carinho, respeito e amizade não se compram em lojas, mesmo assim, quantas são as pessoas que tentam fazer isso o tempo todo? Brinquedos para os filhos para compensar a ausência, presentes caros para o parceiro para compensar um desrespeito, um mimo para a colega para compensar a falta de um pedido de desculpas.

Esse é o modelo de sociedade que estamos vendo se formar diante dos nossos olhos: desconjuntado, confuso, incoerente. Se isso significa progresso, realmente vamos precisar ressignificar muita coisa.

Autora

Patricia Lages é autora de 5 best-sellers sobre finanças pessoais e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. É palestrante internacional e comentarista do JR Dinheiro, no Jornal da Record.

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