Análise: Enquanto nos distraem, batem nossas carteiras

Corrupção é a maior causa de desigualdade e exclusão social, mas é preciso manter as pessoas sob controle para que não se unam contra quem as rouba

Corruptos riem da nossa cara e batem nossa carteira

Corruptos riem da nossa cara e batem nossa carteira

Pixabay

Esta madrugada tive um sonho que, provavelmente, foi o mais real da minha vida. Sonhei que viajei a Brasília a trabalho com uma equipe de jornalistas. Éramos em cinco pessoas e chegamos pouco antes da hora do almoço.

Fomos informados de que os políticos que nos atenderiam já haviam saído para o almoço e estavam nos aguardando em um restaurante. Ao chegarmos, vimos que se tratava de um local chiquérrimo, com toda pompa e circunstância e que, apesar de não estarmos mal vestidos, éramos como plebeus asquerosos entrando no palácio de faraó.

Ao localizarmos a mesa dos políticos que (pensávamos nós) nos aguardavam, vimos que já estavam na metade da refeição e mal nos olharam. Apenas um deles fez um gesto com a mão e apareceram garçons que tiraram cinco cadeiras da mesa para nos sentarmos longe deles. Achamos muito estranho termos de nos sentar em semicírculo ao lado da mesa, sendo que havia espaço para todos. Onde apoiaríamos nossos pratos, copos e talheres? Pobres coitados... naquela altura ainda achávamos que estávamos ali para almoçar!

Os garçons passavam por nós fingindo que não nos viam e os políticos, que deveriam nos receber para prestar contas de seu trabalho, se fartavam dos melhores vinhos e gargalhavam na nossa cara com suas bocas cheias de lagosta. Nós cinco nos entreolhávamos sem entender o que estava acontecendo, mas estávamos com tanta sede que não conseguíamos raciocinar direito.

Ficamos focados em tentar chamar a atenção de um dos garçons – que pareciam ainda mais esnobes que os próprios políticos – para que nos trouxesse pelo menos água. Finalmente um deles trouxe uma pequena garrafa que mal dava para um de nós. Nos distraímos discutindo sobre como beberíamos sem copos e qual de nós era o mais confiável para dividir igualmente o único benefício que, finalmente, depois de tanta luta, havíamos recebido.

Depois de tomarmos um gole cada um, no gargalo mesmo, percebemos que os políticos já estavam se levantando para sair, suspirando de satisfação, acariciando suas barrigas avantajadas e confabulando sobre o que mandariam servir no jantar que, obviamente, seria muito mais glamoroso do que um simples “almoço de trabalho”.

De repente, os mesmos garçons esnobes nos trouxeram cinco comandas para que nós pagássemos pela refeição que apenas havíamos visto e sentido o cheiro. Fomos levados para a fila do caixa, onde havia outras pessoas como nós, e lá ficamos esperando para pagar: comanda em uma mão, cartão de crédito na outra, tudo muito bem organizado.

Como a fila não andava devido à quantidade de pessoas para pagar e apenas um caixa para receber, pedi que um dos meus colegas ficasse com minha comanda e cartão até que eu voltasse do lavabo. Estava muito calor e na “nossa área” não havia ar condicionado. Para minha surpresa, enquanto me refrescava, meu celular toca e uma atendente da central de cartões pergunta se era eu mesma que estava efetuando um pagamento de quase dez mil reais em um restaurante de Brasília.

Disse que não, então a atendente solicitou o cancelamento do meu cartão por suspeita de fraude e prometeu que em sete dias úteis eu receberia outro. Fiquei sem cartão e sem saber como pagaria taxi, hotel, refeições e todas as demais despesas de viagem.

Voltei para a fila indignada, querendo saber quem tentou usar meu cartão, mas ninguém respondia. Então, comecei a gritar: “Eu não comi nada! Vocês são loucos? Depois de nos tratarem feito idiotas ainda querem me fazer pagar a conta? Quem vocês pensam que são?”

Todos me olharam como se eu fosse uma maluca, balançando a cabeça em desaprovação à minha conduta totalmente inapropriada para um local tão elegante. Fui até o caixa e perguntei quem tentou usar meu cartão e, para minha surpresa, foram meus quatro colegas que, ao saberem que nós cinco teríamos que dividir a conta dos políticos, tentaram se livrar do prejuízo aproveitando que eu era a única que não estava por perto.

Acordei cansada e ofegante, como se tivesse corrido uma maratona. Comecei a contar o sonho para o meu marido e, à medida que ia lembrado e descrevendo as cenas, percebi que havia acabado de vivenciar o que talvez tenha sido meu sonho mais real.

Sustentamos políticos que não ligam a mínima para nós, que não estão preocupados se temos comida na mesa, se passamos necessidades ou com o estado da nossa saúde. Coronavírus? É apenas mais uma excelente oportunidade para saquearem os caixas públicos. Eles não se misturam a nós, pois se veem como seres superiores. Eles apenas se servem de nós como se existíssemos para garantir suas vidas de luxo e ostentação.

Mas a corrupção não vem apenas de cima. Ela está muito mais perto do que pensamos e parte de quem menos esperamos. Ela está no “jeitinho brasileiro” de quem não pensa duas vezes em prejudicar os outros para “se dar bem”.

Ao acordar daquele sonho, percebi que vivemos o pesadelo de morar em um país mergulhado em corrupção até o pescoço. E para que a população continue aceitando tudo de cabeça baixa, nos distraem com discursos cheios de palavras bonitas, sempre sorrindo, usando gestos muito bem ensaiados. Querem nos convencer de que lutam por nós e, mais recentemente, conseguiram incutir na cabeça de boa parte das pessoas de que devemos obedecê-los sem questionamentos, pois estão “lutando para salvar vidas”. “Fique em casa”, eles dizem, enquanto gargalham da nossa cara e batem nossas carteiras.