Patricia Lages Análise: Encenação acima de tudo, marketing acima de todos

Análise: Encenação acima de tudo, marketing acima de todos

A primeira pessoa imunizada no país declarou ao Coren que já havia recebido duas doses da CoronaVac, mas Butantan afirma que era placebo

Na matéria “Covid-19: profissionais de enfermagem contam experiência como voluntários nos testes da vacina” publicada no site do Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo (Coren-SP) em 8 de janeiro, Mônica Calazans é uma das entrevistadas.

A enfermeira de 54 anos, que declarou ver no voluntariado uma forma de ajudar a humanidade, afirmou na entrevista que já havia tomado duas doses da vacina sem apresentar qualquer reação adversa e que estava sendo monitorada semanalmente via WhatsApp. Diante da acusação de a imunização de ontem (17) ter sido apenas uma encenação, o Instituto Butantan afirma que Calazans recebeu placebo.

Minutos após a liberação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para o uso emergencial da vacina AstraZeneca/Oxford e da CoronaVac, o palco já estava montado em São Paulo e, mesmo em desacordo com a lei, lá estava o governador – que andou sumido durante a polêmica dos 78% de eficácia que não se comprovaram – estrategicamente posicionado ao lado de Mônica. Os registros em vídeo e as fotos devem ter ficado exatamente como combinado...

Palco montado para fotos e vídeos da primeira vacina: pandemia como trampolim político

Palco montado para fotos e vídeos da primeira vacina: pandemia como trampolim político

Governo do Estado de São Paulo - 17.01.2021

Mas, independentemente de a enfermeira ter sido a primeira brasileira imunizada ou não, é inegável que João Doria vem usando a pandemia como trampolim político e que aproveita todo e qualquer movimento que possa ser transformado em uma boa jogada de marketing. Afinal de contas, para literalmente sair bem na foto, o gestor passa por cima dos acordos e não respeita nem mesmo as leis, porém, quando a situação não lhe convém, rapidamente sai de cena.

Governadores desaprovaram a antecipação da vacinação em São Paulo, alegando que a medida fere o que havia sido pactuado entre os estados. Temendo a perda de apoio para 2022, Doria passou a manhã dando explicações e tentando acalmar os ânimos. Segundo informações divulgadas na CNN Brasil, o governador do Piauí teria afirmado que Doria confidenciou que teve de sair na frente por conta da “disputa política com o presidente Jair Bolsonaro”.

Fica claro que a corrida pela imunização da população tem sido muito mais um cabo de guerra político do que uma preocupação real em por fim a uma pandemia que promete se estender por muito tempo, mesmo após a vacinação em massa. Muitas águas ainda vão rolar e nós, o povo, acabamos ficando à deriva, sendo arremessados de um lado para o outro nessa grande encenação onde o nosso papel é o que menos importa.

Autora

Patricia Lages é autora de 5 best-sellers sobre finanças pessoais e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. É palestrante internacional e comentarista do JR Dinheiro, no Jornal da Record

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